Pensamento

Claudio C. Conti – ccconti@bol.com.br

Pela sua característica progressista e apresentando o tríplice caráter (religioso, filosófico e científico), existe a necessidade de análise e correlação entre a ciência Espírita e a ciência acadêmica. Todavia é imperiosa a consciência de que a primeira foi, e ainda é, direcionada por mentores espirituais que, devido à sua condição de elevação e, ainda, pela sua posição vantajosa de estar em plena capacidade de visão, que é a condição de liberto das limitações da matéria densa, desenvolvem temas que ainda seriam totalmente desconhecidos da humanidade encarnada, enquanto que a segunda é, ainda que com o auxílio destes mesmos mentores, limitada ao campo de atuação dos espíritos encarnados. É possível observar alguma confusão, no meio espírita, quando se correlacionam estes dois ramos da ciência pois, quando se possui apenas conhecimento parcial de um determinado assunto e se aventura a elaborar teorias a respeito, certamente incorrerá em erros que podem ser grotescos.

Existem duas formas de correlacionar a ciência Espírita e a ciência acadêmica: a correta e a errada.

A forma correta é quando se reconhece que os fenômenos espirituais ocorrem fora do âmbito da matéria densa utilizando, assim, as informações disponíveis dos mecanismos dos fenômenos materiais para tentar compreender, mesmo que aproximadamente, como ocorrem, aclarando as idéias para, paulatinamente, aprimorar o entendimento e aproximar da realidade.

A forma errada seria tentar acomodar a teoria dos fenômenos espirituais, mesmo que com isso comprometesse a razão e a lógica, para estar em acordo com o conhecimento disponível e nem sempre completo.

As obras básicas foram, são e, acreditamos, ainda serão por muito tempo, a referência para todo o estudo sério acerca do Espiritismo, até que, quando a humanidade do planeta atingir um grau evolutivo suficiente e prontos para maiores informações, novamente uma plêiade de Espíritos se reunirão para uma outra etapa do trabalho. Com isso, podemos buscar nesta fonte as diretrizes para todo aquele que pretende enveredar na elaboração de teorias. No O Livro dos Médiuns [1], Kardec deixa bem claro quando diz que “O Espiritismo não pode considerar crítico sério, senão aquele que tudo tenha visto, estudado e aprofundado com a paciência e a perseverança de um observador consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto qualquer adepto instruído; que haja, por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da ciência; aquele a quem não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que já não tenha cogitado e cuja refutação faça, não por mera negação, mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente, que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhes aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.”

Algum tempo atrás, deparamos com uma destas “acomodações” que, para o leigo ou com pouco conhecimento na área, pode até fazer algum sentido mas, quando se aprofunda no assunto é fácil de perceber que carece de maiores fundamentos.

Algumas pessoas cogitam, ou até mesmo afirmam, que Jesus, na sua passagem pela crosta terrestre em sua missão de esclarecimento e exemplificação, não possuía um corpo material como o de todos os espíritos encarnados que aqui habitam, atribuem-lhe um corpo “fluídico”, tal qual o de um agênere1 ou algo parecido. Isto explicaria o desaparecimento do corpo após sua experiência na cruz, por exemplo. Para corroborar com esta idéia, foi dada a explicação de que as irradiações do (Ver o livro A Gênese, capítulo XIV, item 36) pensamento de Jesus, pela sua intensidade, “queimariam” o óvulo, impossibilitando o desenvolvimento do feto.

Vários são os fatores que se opõem a esta teoria, primeiramente, e de capital importância, é que, se realmente a intensidade do pensamento de Jesus fosse passível de “queimar” o óvulo, haveria o inconveniente de também “queimar” toda a matéria orgânica que se aproximasse dele, isto significa que não seria possível uma convivência íntima com seus apóstolos ou qualquer outro ser vivo, animal ou vegetal, pois seria necessário manter uma distância considerável. Esta é a situação comum encontrada nos casos em que se manipula materiais radioativos, existindo toda uma formulação matemática para quantificar a radiação que atinge um ponto qualquer, assegurando condições de segurança para os trabalhadores. Além disso, se realmente houvesse esta interação, já teria sido possível, para a ciência humana, desvendar os mistérios do pensamento e, conseqüentemente, do espírito.

Donde conclui-se que o pensamento dos espíritos em geral, e não apenas de Jesus, não pode apresentar os mesmos mecanismos de interação com a matéria densa que os tipos de radiação conhecidos, como os raios X, por exemplo. Vale ressaltar que, e talvez seja esta a origem de tal crença, André Luis, no livro Mecanismos da Mediunidade [2], compara o pensamento das criaturas com as ondas eletromagnéticas, dentre elas os raios gama, apenas com a finalidade de trazer um pouco de luz aos fenômenos de mediunidade, como ele mesmo ressalta ao dizer que “Nossos apontamentos sintéticos objetivam apenas destacar a analogia do que se passa no mundo íntimo das forças corpusculares que entretecem a matéria física e daquelas que estruturam a matéria mental.” grifo nosso.

Kardec, no livro A Gênese [3], analisa e pondera sobre o assunto do corpo de Jesus, deixa bem claro que, até onde se conhece sobre os fluidos, não haveria qualquer impedimento material que impossibilitasse um corpo que não fosse de matéria densa. Todavia, ele ressalta a questão moral do caso, e diz que “…Se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem as dos seres fluídicos, ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que assim haja sido é tirar-lhe o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para que lhe afastasse dos lábios o cálice de amarguras, sua paixão, sua agonia, tudo, até ao último brado, no momento de entregar o Espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna, portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Numa palavra: ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais as conseqüências lógicas desse sistema, conseqüências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem. Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo Fluídico, o que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência.”

Dito isto, caberia algumas considerações a respeito das características e propriedades do pensamento.

Explicar a ação do pensamento, de forma clara e de acordo com os avanços da física, não é tarefa fácil. Devemos, primeiramente, analisar as informações que nos traz André Luis, no livro Evolução em Dois Mundos [4]. No primeiro capítulo, ele apresenta a enorme capacidade do pensamento; diz que os planetas, as galáxias, o universo, enfim, são gerados pela ação de espíritos de ordem muito elevada sobre o fluido cósmico. Nas próprias palavras deste importante autor: “Toda essa riqueza de plasmagem, nas linhas da Criação, ergue-se à base de corpúsculos sob irradiação da mente, corpúsculos e irradiações que, no estado atual dos nossos conhecimentos, embora estejamos fora do plano físico, não podemos definir em sua multiplicidade e configuração…”

Podemos, então, concluir que a tarefa não é apenas difícil, como dissemos acima, mas impossível.

Todavia, sem a intenção de fornecer uma explicação completa, algumas ponderações podem ser tentadas.

Ainda no livro citado [4], André Luis esclarece que pelos mesmos mecanismos, nós, espíritos ainda ombreando num mundo de expiações e provas, formamos o nosso perispírito, e, conseqüentemente, o corpo físico.

Devemos considerar que nosso corpo é formado por células, seres vivos primitivos, sem capacidade de raciocínio embora, é claro, como todo ser vivo, possui uma inteligência. Poderíamos, portanto, formular a seguinte pergunta: Como podem seres tão primitivos exercer suas funções corretamente, de molde a que possa existir um corpo tão complexo como, por exemplo, o humano?

Esta é uma boa questão, para a qual somente pode existir uma resposta: Elas seguem o comando de uma inteligência superior – o espírito. Isto significa que, através do nosso pensamento, nós não apenas “construímos”, mas também controlamos, mesmo que inconscientemente, o nosso perispírito e corpo físico. Sendo assim, nossa conduta, que corresponde diretamente ao nosso padrão mental, reflete-se diretamente nos estados de saúde ou de enfermidade. Quem viveria mais satisfeito: uma pessoa com um chefe mal-humorado ou uma outra, com um chefe feliz?

Partindo ainda do mesmo princípio, conclui-se que o pensamento tem um imenso poder criador e tudo aquilo que pensamos irá, conseqüentemente, gerar formas que, dependendo da vontade impressa nesta forma, terá duração mais ou menos longa. Por isso, vale lembrar o conselho do Mestre: vigiai e orai.

Tanto André Luis [2,4] quanto Joanna de Angelis [5] definem o pensamento como onda. No mundo físico, temos ondas sonoras e luminosas. Embora ambos os casos sejam energia em movimento, no primeiro, o impulso energético é transmitido de molécula a molécula do ar ou um meio qualquer, enquanto que no segundo caso, a energia se apresenta em uma forma de onda diferente, é onda eletromagnética, composta por um campo elétrico e um outro magnético que se propagam sempre juntos, à velocidade limítrofe de 300.000 km/s (a velocidade da luz). Para a nossa compreensão, os dois autores espirituais mencionados comparam o pensamento a essas ondas eletromagnéticas, que constituem a forma de energia mais sutil que conhecemos.

Considerações mais recentes no campo da física conduzem a idéia de fenômeno “não-local”. Para uma melhor compreensão, é necessário definirmos, primeiramente o que seja um fenômeno “local”.

O princípio da localidade é explicitado como tudo o que acontece na dimensão espaço-temporal conhecida, isto é, no nosso âmbito normal de atuação. Todavia, inclusive nesta nossa dimensão limitada, alguns fatos interessantes ocorrem. A Teoria da Relatividade desenvolvida por Albert Einstein, por exemplo, prediz que para um objeto, quando é acelerado a velocidades próximas da luz, o tempo tende a parar. Isto mesmo! Quanto mais rápido, mais vagarosamente o tempo passa.

Em outras palavras, o tempo flui em velocidades diferentes, dependendo da situação. Nos casos de não-localidade, o fenômeno ocorre fora do espaço–tempo conhecido. Assim, a limitação de velocidade deixa de existir, como indicam alguns experimentos. A consciência humana estaria situada entre os fenômenos “não-locais”. É claro que nem todos os cientistas compartilham da mesma idéia.

Poderíamos, talvez, dizer que a ação do pensamento, que nada mais é do que transferência de informação, seria capaz de, agindo nos fenômenos quânticos responsáveis pela manutenção da matéria, trabalhar para a elaboração dos corpos materiais a partir dos fluidos ambientes. É importante salientar que o tempo de duração de determinada criação estará relacionado com a intensidade da vontade que se imprimiu ao fluido.

Provavelmente, quando o homem tiver atingido um estado de conhecimento suficiente para o entendimento dos fenômenos “não-locais”, estaremos mais próximos do reconhecimento científico generalizado da existência do espírito.

Referência:

[1] Kardec A.; “O Livro dos Médiuns”; 36ª edição, FEB, 1995, cap. II, item 14, §8.

2] André Luiz; “Mecanismos da Mediunidade” (Psicografia de F. C. Xavier.); 15ª edição, FEB, 1997, cap. I.

[3] Kardec A.; “A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo”; 36ª edição, FEB, 1995, cap. XV, item 66.

[4] André Luiz; “Evolução em Dois Mundos” (Psicografia de F. C. Xavier.); 15ª edição, FEB, 1997, cap. I.

[5] Joanna de Angelis; “Dias Gloriosos” (Psicografia de Divaldo Franco); 2a edição, Livraria Espírita Alvorada Editora, 1999.

(Artigo originalmente publicado pela Casa Editora O Clarim na edição de abril de 2003 da Revista Internacional de Espiritismo

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