A viagem

Iris Sinoti

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A meta do Espírito é tornar-se pleno, conquista essa que se dá através de uma longa trajetória, na qual vai realizando suas experiências e aprendizados em diversas existências corporais.

O caminho dessa trajetória não é único, porquanto o livre arbítrio, a possibilidade de escolher os próprios passos é parte importante desse processo. Como citado no Evangelho, “os caminhos do Senhor são infinitos”, os caminhos são inúmeros, assim como inúmeros são os indivíduos, e cada um deve percorrer seu próprio caminho, realizar sua viagem, vivenciar o mistério da vida, o qual normalmente é inefável e contraditória.

Carl Gustav Jung, no conceito de individuação, ressalta a necessidade de diferenciarmo-nos, a necessidade de sermos únicos e assumirmos o nosso papel nas nossas vidas. De forma resumida, a individuação é a jornada através da qual o indivíduo é impulsionado a tornar-se consciente de suas próprias potencialidades, a ser a pessoa que nasceu para ser. Para que isso ocorra, o pai da Psicologia Analítica esclareceu que é necessário diferenciar-se do coletivo para que o indivíduo possa viver sua própria identidade.

Diferenciar-se não é tarefa fácil, pois ainda somos emocionalmente dependentes das opiniões alheias, ainda somos “tentados” a manter nossas máscaras, a persona, para poder agradar ao coletivo. Muitas vezes, a pressão vem do próprio ambiente familiar, que tenta modelar o indivíduo para que cumpra o que lhe agrada, e não o chamado de sua própria alma.

Por isso mesmo, diferenciar-se para atender o chamado da individuação requer alguns requisitos essenciais, dos quais ressaltamos: coragem, humildade e perseverança.

Todos nós somos, de certo modo, programados para a grande viagem da individuação, que é um processo “natural”, ou seja, faremos esta viagem estejamos com as malas prontas e passagens comprados ou não. A diferença é a quantidade de envolvimento que disponibilizamos para fazê-la e o quanto ela seja prazerosa dependerá disso!

A vida é assim, convida, e resta-nos crescer com esses convites, recuperando-nos e principalmente assumindo as consequências, quando não aceitarmos esse convite, pois tudo é resultado das escolhas feitas e dos compromissos não assumidos.

Muitos de nós ficamos preocupados em descobrir nossa “missão”, e deixamos passar o maior trabalho que temos que realizar: o trabalho de uma vida inteira, que é o nosso processo de individuação, tornarmo-nos o mais consciente de quem somos. Somos convidados a vencer o desafio de sustentar a contraditoriedade da existência, e isso significa viver algumas experiências que amamos e outras que odiamos.

Afinal, como já recordava o apóstolo Paulo, queremos o bem, mas ainda fazemos escolhas ruins para nós e para os outros, e por isso mesmo precisamos aceitar nossa sombra como parte importante para a nossa evolução como espíritos.

Justamente por não estarmos vivendo a vida como deveríamos, aceitamos atender a pulsão de tânatos e nos deprimimos com as sombras do passado, atendemos as pressões do presente e nos envolvemos no medo do futuro, ficando cansadas e cansados da própria vida.

Não existe um único dia que o convite para essa transformação não aconteça, ele é o nosso passaporte à maturidade, à integridade, à diferenciação e à integração. Estamos aceitando esse convite? Ou elegemos a ansiedade como nossa guia na viagem chamada vida?

O que estamos fazendo da nossa vida? Mesmo que ninguém nos faça essa pergunta, um dia nossa própria alma fará. Será que teremos uma resposta? Será que estamos empenhados de fato na nossa transformação, na mudança que desejamos, ou apenas seguimos sem olharmos as sementes que estamos plantando?

Afinal, querendo ou não, “A viagem” já começou…

Iris Sinoti

Fonte: correioespírita.org.br

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Alguns comentários espíritas ante as funções cerebrais

Escrito por Jorge Hessen

cerebro

Nos últimos anos, a neurociência sofreu uma explosão no campo da pesquisa. A cada dia, surgem novas técnicas, como mapeamentos cerebrais, que podem fotografar instantaneamente o fluxo sanguíneo do órgão. “Todas as inovações ajudaram a revelar a organização do cérebro em detalhes.” (1). Nosso cérebro representa, apenas, 2% do peso total do corpo, mas possui, segundo pesquisas atuais, aproximadamente, 100 bilhões de neurônios [células nervosas cerebrais], sendo que, em algumas de suas partes, para realizar suas funções, aglomera até 5 milhões de neurônios de uma só vez e é capaz de produzir cerca de 1.000 trilhões de conexões.

Como os neurônios estão em atividade permanente, o consumo de energia é grande, motivo pelo qual o cérebro consome 20% do oxigênio diário, necessário para o corpo físico. Sabe-­se, hoje, que o cérebro contém 78% de água, 10% de gordura, 8% de proteína, 1% de carboidrato, 1% de sal e 2% de outros componentes. No cérebro temos, no córtex, “os centros da visão, da audição, do tato, do olfato, do gosto, da palavra falada e escrita, da memória e de múltiplos automatismos em conexão com os mecanismos da mente, configurando os poderes da memória profunda, do discernimento, da análise, da reflexão, do entendimento e dos multiformes valores morais de que o ser se enriquece no trabalho da própria sublimação.” (2)

Os neurocientistas não têm mais medo de falar, publicamente, sobre consciência e como o cérebro produz a mente. Segundo pesquisadores, a experiência espiritual das pessoas pode ser explicada pela “ausência” de atividade em uma das regiões do cérebro, mas, especialmente no lóbulo parietal direito, onde se processa as preferências e gostos pessoais, e onde se “reconhecem as habilidades e os interesses amorosos da pessoa, portanto, responsáveis pela afirmação da identidade individual, segundo Brick Johnstone, da Universidade de Missouri­, EUA.” (3)

Cameron Mott, 9 anos de idade, após ser submetida a complexa cirurgia do cérebro, teve alta um mês após a internação no hospital da Universidade Johns Hopkins. A menina teve quase 50% do cérebro removido por ordem médica (4). As únicas sequelas foram uma “pequena debilidade” nos movimentos e a perda da visão periférica. A sua recuperação surpreendeu médicos e familiares e contrariou a literatura médica. Atualmente a menina já consegue correr e brincar e faz planos para o futuro, quer ser bailarina!

Mott era portadora de síndrome de Rasmussen, doença que vinha corroendo o lado direito de seu cérebro há seis anos, causando convulsões violentas. Na opinião médica, só poderiam ser evitadas sequelas mais agudas pela remoção da metade do cérebro da paciente. Segundo os cirurgiões, a recuperação de Cameron ilustra uma situação raríssima em que o cérebro promove uma “reconfiguração”. Tal como ocorreu com Michele Mack, de 37 anos. Nascida com metade do cérebro, Michelle fala normalmente. O lado direito de seu cérebro se “reconfigurou” para assumir as funções típicas do lado esquerdo. Porém, em seu caso, as sequelas foram mais acentuadas: Mack tem dificuldades na compreensão de conceitos abstratos e se perde facilmente em lugares com os quais não tem familiaridade. Embora nossa experiência no mundo nos condicione de muitas maneiras, o cérebro, sem dúvida, possui uma capacidade espantosa de se reconfigurar de acordo com a informação que recebe de fora.

Atualmente é consenso que a função cerebral mais básica é manter o restante do corpo físico vivo. Os processos envolvidos nessa tarefa, entretanto, são extremamente complexos. O cérebro apresenta 38 tipos de enzimas (neurotransmissores) tais como: dopamina, serotonina, endorfina, noradrenalina etc., além de tantas outras funções vitais. O cérebro humano constitui­se num verdadeiro arcabouço complexo de inúmeras reações de várias naturezas bioquímicas, eletroquímicas e magnéticas. E por ser tão complexo e tão importante, muitos materialistas do passado defendiam a tese de que os pensamentos vinham do cérebro. Se indagarmos a um materialista o que é mente, ele irá responder certamente que a mente é responsável pelos pensamentos. Mas será só isso? Vamos raciocinar como nos sugere o bom senso espírita. Se os pensamentos vêm da mente, logo a mente pensa! Se a mente pensa, logo a mente é pensante. Se é pensante, logo ela raciocina, ou seja, é inteligente. Ora, “a inteligência é um atributo do Espírito.” (5)

Embora tentem explicar (só pelos fenômenos físicos), pela prática dos neurologistas, toda a classe de fenômenos intelectuais e até “espirituais”, através das ações combinadas do sistema nervoso; e, em que pese a Ciência ter atingido certezas irrefutáveis, como, por exemplo, a de que uma lesão orgânica faz cessar a manifestação que lhe corresponde, e que a destruição de uma rede nervosa faz desaparecer uma faculdade, ela, porém, está infinitamente limitada para explicar os fenômenos do espírito. Em razão de semelhante situação, não podemos afastar a verdade da influência de ordem espiritual e invisível no cérebro.

O cérebro é o meio que expressa a inteligência no mundo material. Por isso, a maioria dos estudiosos da mente humana faz da inteligência um atributo do cérebro. Há uma diferenciação significativa entre a pesquisa acadêmica com viés, nitidamente mecanicista, e a ciência espírita, pois, enquanto a ciência humana faz do cérebro o excretor da inteligência, a ciência espírita faz do cérebro um instrumento do espírito, que é o ser inteligente individualizado. O cérebro assemelha­-se a complicado laboratório “onde o espírito, prodigioso alquimista, efetua inimagináveis associações atômicas e moleculares, necessárias às exteriorizações inteligentes.” (6)

Nervos, zona motora e lobos frontais, no corpo carnal, traduzindo impulsividade, experiência e noções superiores da alma, constituem campos de fixação da mente encarnada ou desencarnada. “Para que nossa mente prossiga na direção do alto, é indispensável que se equilibre, valendo-se das conquistas passadas, para orientar os serviços presentes, e amparando­-se, ao mesmo tempo, na esperança que flui, cristalina e bela, da fonte superior de idealismo elevado; através dessa fonte, ela pode captar, do plano divino, as energias restauradoras, assim construindo o futuro santificante.” (7)

“Os órgãos são os instrumentos da manifestação das faculdades da alma, manifestação que se acha subordinada ao desenvolvimento e ao grau de perfeição dos órgãos, como a excelência de um trabalho o está à da ferramenta própria à sua execução.” (8) “Encarnado, traz o Espírito certas predisposições e, se admitir que a cada uma corresponda no cérebro um órgão, o desenvolvimento desses órgãos será efeito e não causa. Se nos órgãos estivesse o princípio das faculdades, o homem seria máquina sem livre ­arbítrio e sem a responsabilidade de seus atos”. (9) Percebe­-se pelas instruções dos espíritos que a causa dos impulsos cerebrais que levam o indivíduo a realizar um ato ou pensamento reside no espírito. O perispírito, em interação com o cérebro e o sistema nervoso, é responsável pela “ponte” entre o princípio inteligente do universo, essência da vida, e a sua manifestação no mundo material, o corpo físico.

O Codificador busca dos Espíritos a justificação da relação entre os órgãos cerebrais e as faculdades morais e intelectuais (do Espírito), e deles recebe esta magnífica explicação: “Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos”. (10)

Quando forem descobertas tecnologias muito mais sofisticadas, que nos possibilitem um exame aprofundado da estrutura funcional do perispírito, a medicina transformar­-se-­á radicalmente. Os hospitais, possuindo instrumentos de altíssima resolução, muito além daqueles que existem hoje, os diagnósticos serão, inequivocamente, precisos, o que possibilitará a cura real das doenças. Os profissionais da saúde trabalharão muito mais de forma preventiva, evitando, assim, por exemplo, as intervenções cirúrgicas alargadas, invasivas, realizadas, abusivamente, nos dias de hoje. Os médicos terão oportunidade de conhecer, com detalhes, a estrutura transdimensional do corpo perispiritual, compreendendo melhor o modo como se imbricam as complexas estruturas do psicossoma, nas chamadas sinergias, para melhor auxiliar na terapia e manutenção da saúde mento­-física-­espiritual de seus pacientes.

Jorge Hessen

Fonte: geae.net.br

Referências:

(1) Disponível no site http://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/ult10037u318086.shtml, acessado em 18­05­10

(2) Xavier Francisco Cândido/ Vieira Waldo, Mecanismos da Mediunidade, ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed. FEB, 2000, cap. IX

(3) Publicado jornal científico “Zygon”. SXC, novembro ,2008

(4) Hemisferectomia (a extirpação cirúrgica de um hemisfério cerebral) realizada por neurologistas da Universidade Johns Hopkins

(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed.FEB, 2001, 1 ª Parte, cap. IV, item 71 – “Inteligência e Instinto”

(6) Xavier, Francisco Cândido. EMMANUEL, Ditado pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 2001

7) Xavier, Francisco Cândido. No Mundo Maior, Ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed.. FEB, 1997, cap. 4

(8) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed.FEB, 2001, perg. 369

(9) idem

(10) idem

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Espírito de Aceitação

Orson Peter Carrara

Numa resposta de Chico Xavier sobre o tema que destacamos como título, especialmente considerando as enfermidades, encontramos dica preciosa no enfrentamento das doenças. Respondeu o médium ao repórter:

“Acredito que, se a pessoa está no merecimento natural da cura, tenha ela fé, ou não tenha fé, a misericórdia divina permite que essa criatura encontre a restauração de suas forças. Isso em qualquer lugar, em qualquer religião, ou em qualquer tempo; agora, os Espíritos nos aconselham um espírito de aceitação. (…)”.

E prossegue o médium, agora com a preciosa dica: “(…) O espírito de aceitação torna mais fácil para o médico deste mundo, ou para os benfeitores espirituais do outro, atuarem em nosso favor. Agora, a nossa aflição ou a nossa inquietação apenas perturbam os médicos neste mundo e no outro, dificultando a cura.”

Mas conclui com sabedoria: “E podemos ainda acrescentar que, muitas vezes, temos conosco determinados tipos de moléstias, que nós mesmos pedimos, antes da nossa reencarnação, para que nossos impulsos negativos ou destrutivos sejam percebidos. Muitas frustrações que sofremos neste mundo são pedidos por nós mesmos, para que não venhamos a cair em faltas mais graves do que aquelas que já caímos em outras vidas. (…)”

– Do livro Chico Xavier, Diálogos e Mensagens, edição IDE.

Fonte: kardecriopreto.com.br

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TODOS FOMOS CHAMADOS, MAS….

Jorge Hessen

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Em nosso processo evolutivo, somos convidados pelo Criador a adentrar pela porta estreita que nos conduz à vida essencial através do exercício das virtudes contidas no código moral de lei da consciência; no entanto, ao marcharmos pela estrada da vida, quase sempre abraçamos a viciação e atravessamos a porta larga que nos transporta à ansiedade e à desdita, sob o aguilhão da preguiça moral, da empáfia, das facilidades inebriantes, da luxúria, da hipnose mental, da inveja, que repletam o mundo transitório das ilusões.

Eis aí a abertura da perdição, porque são amplas as viciações que trazemos enraizadas em nossa milenar e sombria hegemonia do egoísmo. Marchando de tal modo, a vida nos relega a assumirmos as consequências de nossas escolhas egoicas, consoante indicado na máxima do Cristo: “Muitos são os chamados e poucos os escolhidos”. (1)

Os escolhidos conseguem despertar as potencialidades do ser essencial, para a evolução do eu divino que somos em essência, que é infinitamente maior do que as conquistas transitórias das coisas impermanentes ao longo do tempo. Por isso, a comparação da majestática festa, onde tudo é beleza e contentamento, porque aquele que evolui essencialmente, e que passa a conhecer e conviver em harmonia com o Código moral de lei da consciência, vive de forma leve, suave, alegre e feliz.

Resolvido o problema do Espírito, pela autoeducação, pelo esforço ininterrupto, tudo nos será acrescentado e nada nos entristecerá, nem as questões econômicas, nem as dificuldades de relacionamento, ou mesmo de saúde, porque conectados com a essência divina que somos transcenderemos a todos os desafios fugazes da matéria.

A rigor, naturalmente temos dois tipos de apetite: da fome material e da fome espiritual. Para atender a fome do corpo físico nos empenhamos, lutamos, lançamos mão de todos os recursos transitórios. Mas, quanto a fome espiritual, comumente não nos cuidamos. Nem queremos saber que temos necessidade de alimento espiritual. Ignoramos essa necessidade, e até tratamos mal os que nos oferecem.

De fato, muitos de nós queremos cura para o corpo, resolver os problemas de ordem material, mas são raros os que querem aprender a amar, a servir, a ser útil a seu próximo. A História nos apresenta seres moralmente esclarecidos, que trabalharam para levar o alento espiritual (compreensão das Leis Divinas da consciência) e foram incompreendidos, insultados, e muitos pagaram com a própria vida, pelo fato de se amarem e amarem o seu semelhante. O exemplo maior é o do próprio Cristo.

A rigor, todos somos convidados. Porém, não basta sermos chamados, é necessário “vestirmos a túnica”, ou seja, purificarmos os sentimentos e praticarmos a Lei de amor, justiça e caridade, a fim de reunirmos condições para sermos escolhidos na divina festança.

Não basta saber, é preciso sentir e realizar. Não adianta tão-somente informação teórica, mas experiência transformadora. O critério da divinal escolha depende de nós, do nosso desempenho no bem, para nos adjudicar o caminho para a Vida Maior.

Jesus, referindo-se à Divina Ascensão para a Vida Maior disse que “serão muitos os chamados e poucos os escolhidos” para o reino dos céus. Isso quer dizer que, sem chamada, não há escolha. Mas se estamos claramente informados de que a chamada vem de Deus, atingindo todas as criaturas na hora justa da evolução, só a escolha, que depende do nosso discernimento e exemplificação de amor, nos confere caminho para a Vida Maior.

Sobre a questão de um dos chamamentos especiais, recordamos o Espirito Emmanuel, citando Francisco de Assis na monumental obra “A caminho da Luz”, informando que na Idade Média os apelos dos Benfeitores da Humanidade insistiram para que a igreja romana oferecesse a aplicação do código do amor e da fraternidade em todas as direções. Até porque, os movimentos tidos como “heréticos” (para os bispos da Cúria) germinavam por toda parte onde existisse consciências livres e corações sinceros, contudo, as autoridades eclesiásticas estorvaram os apelos do Alto.

No início do Século XIII, o combate contra os “hereges” abarcou o espaço de duas décadas, quando componentes do alto clero da Cúria de Roma deliberaram o baldrame do tribunal da penitência. O desígnio era precipuamente disfarçar tal empreendimento à guisa de administradora imperativa de suposta unificação religiosa, contudo o objetivo real era alargar a extensa autoridade clerical sobre as consciências livres.

Em verdade, se a Inquisição absorveu as autoridades da Igreja, antes da sua fundação, como notamos acima, do mesmo modo preocupava os Benfeitores do além, motivo pelo qual, foram providenciadas medidas de renovação educativa em chamadas específicas.

Portanto, dentre tais convocados transcendes observamos a consolidação da reencarnação do ínclito filho de Assis. Isso foi marcante, porque a convocação e a atividade de Francisco iria ser reformista sem os choques próprios da verborragia, porque o seu sacerdócio seria o exemplo na pobreza e na mais absoluta humildade.

Nem por isso, o clero entendeu que a lição franciscana lhe dizia respeito e, ainda uma vez, não abrigou os convites dos Operários Divinos. A diligência atuante do filho da Úmbria, não logrou decompor o furor de domínio dos pontífices romanos, porém deixou traços cintilantes e indeléveis da sua passagem na Terra. Seu exemplo de simplicidade e de amor, de singeleza e de fé, contagiou numerosas criaturas, que se entregaram ao mister de regenerar almas para Jesus.

De fato, os seguidores de Francisco, não aderiram a porta larga e nem repousavam à sombra dos mosteiros, na falsa quietude sob a inócua contemplação, pois que reconheciam que a melhor oração, para Deus, é a da porta estreita do trabalho útil, no aprimoramento do mundo e dos corações pelos exemplos de renúncia.

Aliás, os discípulos do conspícuo filho da Úmbria destacam no exercício do amor a universalização das profundas reflexões da memorável oração. E, quando decodificamos o cântico de Francisco, à primeira vista temos a impressão que o filho de Assis apenas nos convida a sairmos por aí (esmolando), distribuindo coisas (materiais) a serem entregues aos esfaimados, porém, na verdade, a grande proposta de Francisco é que mergulhemos em nós mesmos para que  onde houver o ódio em nosso mundo  interior levemos amor; onde houver ofensa em nosso coração que plantemos o perdão.

A oração de Francisco é um convite para trilharmos um caminho de aprendizado e autotransformação e tem o código moral de leis como referência máxima a fim de que possamos trilhar pelas vias da consciência.

Recordemos que Jesus nos convidou “vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo“.(3  Se aceitarmos esse convite , observaremos na oração de Francisco de Assis um roteiro seguro de como fazer isso, seguir o caminho do Evangelho para sermos escolhidos na condição de aprendizes do Governador planetário.

Em todas as iniciativas humanas, somos chamados para realizações nobres e, no entanto, cobertos pela sombra dos egos (evidente e mascarado), prontamente desinteressamo-nos de avançar por ausência de retorno compensador ao vazio existencial, absorvendo-nos e entulhando-nos de ansiedades e ações no afã de aquisição de coisa vãs.

Destarte, ao galgarmos a estrada da evolução, faz-se mister a prudência, a temperança, a fé, a esperança, a caridade, percorrendo o caminho das lutas, dos obstáculos, dos sacrifícios, esforçando-nos para o autoaperfeiçoamento. Deste modo, permaneceremos nos aparelhando para um porvir de contentamento e felicidade.

É uma estrada árdua, bem sabemos, pois impõe ser trilhada com cuidado, examinando onde penetrar, porque poderemos levar longo tempo para retomar o caminho que nos é próprio, e entendendo, definitivamente, a importância do vigiar e orar tão alertado por Jesus.

Encontramo-nos envoltos em ações iluminativas cada vez mais austeras. Naturalmente arrostando as lutas, adquirimos sabedoria e ascendemo-nos recorrendo à oração como fonte de energia, inelutavelmente triunfaremos sobre as dificuldades que já não nos serão intransponíveis na caminhada, mas apenas uma experiência desafio no processo de autoevolução.

Portanto, na admoestação “muitos são os chamados e poucos os escolhidos” (2) para ingressarmos nos “Recintos celestiais”, metaforizado na majestosa festa, onde tudo era felicidade e alegria, podemos compreender como um convite para a evolução essencial, consoante a afirmativa de Jesus, que o “Reino divino” está em nossa própria consciência.

Jorge Hessen

Fonte: Jorge Hessen

Referências:

1) Mateus, 20:16-20

2) idem, 22: 1-14

3) idem, 11:28-30

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Hospital Esperança (No Mundo Espiritual)

Fernando Rossit

O Espírito Manoel Philomeno de Miranda, no Livro “Tormentos da Obsessão”, nos traz detalhes, não só nesse trecho que separamos, mas em toda a obra, sobre o Hospital Esperança, localizado no Plano Espiritual.

1

 

Vejamos:

“Erguido, graças aos esforços e sacrifícios do eminente Espírito Eurípedes Barsanulfo, na década de 1930 a 1940, aquele Sanatório passou a recolher desde então as vítimas da própria incúria, tornando-se um laboratório vivo e pulsante para a análise profunda das alienações espirituais”.

“O missionário sacramentano havia constatado ser expressivo o número de almas falidas nos compromissos relevantes, após haverem recebido as luzes do Consolador (espíritas), e que retornavam à Pátria Espiritual em lamentável estado de desequilíbrio, sofrendo sem consolo na erraticidade inferior. Movido pela compaixão que o caracteriza, empenhou-se e conseguiu sensibilizar uma expressiva equipe de trabalhadores espirituais dedicados à psiquiatria, para o socorro a esses náufragos da ilusão e do desrespeito às soberanas leis da Vida, credores de misericórdia e amparo.”

Quais são os pacientes?

-Médiuns levianos, que desrespeitaram o mandato de que se fizeram portadores;

-divulgadores descompromissados com a responsabilidade do esclarecimento espiritual;

-servidores que malograram na execução de graves tarefas da beneficência;

-escritores equipados de instrumentos culturais que deveriam plasmar imagens dignificadoras e que descambaram para as discussões estéreis e as agressões injustificáveis;

-corações que se responsabilizaram pela edificação da honra em si mesmos, abraçando a fé renovadora, e delinquiram;

-mercenários da caridade bela e pura;

-agentes da simonia (troca de bem espiritual pelo material) no Cristianismo restaurado;

Ali se encontram recolhidos, muitos deles após haverem naufragado na experiência carnal, por não terem suportado as pressões dos Espíritos vingadores, inclementes perseguidores aos quais deveriam conquistar, ao invés de lhes tornarem vítimas, extraviando-se da estrada do reto dever.

Verdadeiro Hospital-Escola, constitui um brado enérgico de advertência para os viajores do carro orgânico, que se comprometeram com as atividades de enobrecimento e amor.

Fernando Rossit

 Fonte:

-Tormentos da Obsessão, Divaldo Franco/Manoel P. de Miranda.

(kardecriopreto.com.br)

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Agenor, um Espírita Fracassado

(Internado no Hospital Esperança)

Fernando Rossit

4

No livro “Tormentos da Obsessão”, o Espírito Manoel P. de Miranda descreve-nos detalhes do Hospital Esperança, situado no Plano Espiritual, destinado especialmente para o atendimento aos espíritos fracassados nas suas tarefas na Terra, notadamente aqueles que conheceram a Doutrina Espírita na última reencarnação.

Iremos fazer um resumo do estado espiritual de Agenor, um médium fracassado.

Manoel, o autor espiritual que estava conhecendo os trabalhos de assistência do Hospital Esperança, se deparou, numa visita aos doentes em tratamento, com Agenor, paciente que se encontrava internado em estado sonambúlico há mais de dois anos.

Seu sentimento de culpa levou-o a encarcerar-se num casulo, criado pela auto-hipnose a que se permitiu inconscientemente para fugir da dor moral.

Tratava-se o casulo de um verdadeiro esconderijo para ele, já que não conseguia suportar a consciência culpada a lhe acusar dos graves erros cometidos na última reencarnação, conquanto conhecesse a mensagem esclarecedora do Espiritismo.

“Havia adquirido estranha aparência, envolvendo-se em anéis constritores que se movimentavam ao ritmo respiratório. As formas convencionais e humanas haviam sido substituídas pela esdrúxula carapaça que o envolvia externamente, apesar de a respiração eliminar a pestilencial substância que se adensava no ar em contato com a predominante no recinto”.

Foi então que o Espírito Manoel P. de Miranda tomado de sincera compaixão, com seu pensamento alcançou a área correspondente ao cérebro de Agenor, e acompanhou a luta que era travada pelo seu Espírito mergulhado em profunda angústia. Verificava que Agenor sentia-se encarcerado naquele casulo, gritando blasfêmias e imprecações, ameaçando-se de suicídio com interregnos de alucinação.

Passava pela sua mente, como numa tela cinematográfica, os atos que havia cometido e que respondiam pela situação penosa em que se encontrava, sofrendo grande aflição.

Não conseguia raciocinar ou elaborar algum mecanismo de libertação. Apareciam na sua mente as imagens do passado, especialmente as decorrentes do uso infeliz que fizera da existência dedicada ao prazer, e, por fim, ao mergulho em distúrbio depressivo sob a ação mental de vingador inclemente que o induziu ao suicídio.

Inácio Ferreira, o mentor que acompanhava Manoel F. Miranda, informou que Agenor nasceu em lar feliz, amparado pela abnegação materna, que não soube valorizar desde os verdes anos da existência física. Convidado ao estudo do Evangelho no Lar, realizado pela mãezinha, escusava-se, renitente e ingrato. Reencarnara-se, como é normal, para recuperar-se de graves delitos, e o Espiritismo dever-lhe-ia ser a diretriz de segurança para caminhar com acerto, mas pouco assimilou das lições espíritas e cristãs.

Mas, logo que lhe foi possível, Agenor entregou-se aos disparates sexuais, enveredando pelas drogas de consumo fácil.

Nos intervalos, quando despertava dos estados de alucinação, encontrava a mãezinha vigilante a convidá-lo à mudança de comportamento, sem que os resultados se fizessem eficazes.

Nesse comemos, adveio a desencarnação da senhora, crucificada no sofrimento que ele lhe impunha, e, logo recuperando-se no Além, compreendeu que somente o tempo seria o grande educador do filho rebelde.

Os anos sucederam-se, multiplicando desequilíbrios no Agenor, que mergulhou em profunda depressão, mais consumindo drogas, até que, inspirado pelos Espíritos perversos com os quais convivia mentalmente, desertou do corpo através de uma superdose.

Sua mãezinha, já desencarnada, submissa aos desígnios de Deus e conhecedora das leis que regem a vida, ao invés de censurar ou esquecer o filho, empenhou-se em prosseguir auxiliando-o, conseguindo ampará-lo além da morte com a sua posterior transferência para o Hospital Esperança, depois de um período de tempo expressivo em que Agenor permaneceu em região espiritual correspondente à situação de suicida.

Há quinze anos desencarnado, encontrava-se no Hospital fazia 2 anos em processo de recondicionamento e reequilíbrio.

Inácio Ferreira, finaliza:

“Os momentos de calma, que foram observados, são já o resultado das induções abençoadas da genitora, que o tranquilizam por breves momentos, e que se irão ampliando até que sejam conseguidos mais significativos reflexos de paz no seu mundo interior desestruturado.”

Fernando Rossit

Fonte:  -Tormentos da Obsessão, Divaldo P. Franco/Manoel Philomeno de Miranda

kardecriopreto.com.br

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Sintonia e frequência

Por Umberto Fabbri

A doutrina espírita se mostra cada vez mais atual e revolucionária, apesar da data de sua codificação; ela não se torna obsoleta, ao contrário. Cada vez que a estudamos podemos observar que suas revelações aos poucos encontram comprovações científicas irrefutáveis, algo perfeitamente justificado, uma vez que a recebemos das grandes inteligências da dimensão espiritual.

A profundidade de seu conteúdo vai emergindo na medida em que conseguimos aprofundar nossas pesquisas e métodos investigativos.

Trouxemos hoje uma questão que parece simplória em um primeiro momento, mas, quando aplicada ao que hoje já entendemos e vivemos, se mostra grandiosa em suas aplicações e consequências.

Na questão 285 de O livro dos médiuns, Kardec comenta sobre a telegrafia humana, a comunicação à distância entre duas pessoas vivas, que se evocam reciprocamente, que entram, por vontade própria, em sintonia mental, conectando-se. Nos diz ainda que esta será a comunicação do futuro, universal de correspondência, podemos pelo pensamento nos ligar a qualquer pessoa no Universo! Isto não é pouca coisa, demonstrando o poder que um pensamento possui, quando bem treinado, focado e, claro, elevado.

Fazendo pontes pelo pensamento

Visualizando o cenário mundial, inclusive na pandemia, fomos chamados a desenvolver este potencial na raça, por necessidade. Estando longe de nossos afetos, encontramos no pensamento um modo de proximidade.

Evidentemente, a tecnologia nos auxiliou, possibilitando a comunicação, pois pudemos nos ver, conversar, mas a troca emocional que se efetua não caminha pela fibra ótica, tampouco é transmitida por satélites. A emoção, o afeto, o sentimento que trocamos, bom ou ruim, caminha por onde? Já se perguntaram? De que forma somos atingidos, impactados pelo ódio, ou somos agraciados pela troca sincera de afeto? Exatamente pelo pensamento. Entrando na mesma frequência nos sintonizamos, trocamos as energias que nos alimentam ou destroem, dependendo dos nossos objetivos, ideais, ou ainda de nossa falta de conhecimento ou displicência.

Além da possibilidade da comunicação, somos ainda defrontados a cada dia com a influência programada e cada vez mais desenvolvida para motivar o consumo ou deter nossa atenção em redes sociais, por exemplo, visando fins diversos. E os amigos poderão perguntar: qual a relação disto com a pergunta 285 de O livro dos médiuns?

É justamente a sintonia mental, a troca que se efetua com outras mentes, que não vemos e percebemos, mas com as quais nos unimos pelo pensamento, vibração, nos retroalimentando das mesmas energias de nossos interesses, algumas saudáveis, boas, outras negativas, viciosas e manipuladoras.

Como espíritas que somos, sabemos que a linguagem dos espíritos é o pensamento, e a ligação que se dá também com os desencarnados.

Vigilância e oração

O pensamento é um recurso valioso, mas que precisa, conforme nos ensina Jesus, de vigilância e oração. Vigilância para o cuidado, e justo direcionamento, e oração para manter a frequência salutar e renovadora com as mentes amorosas e boas que nos auxiliam e aconselham, consolam, inspiram.

Esta capacidade de comunicação mental nos atinge muito mais do que imaginamos em nosso dia a dia, podendo ser motivo de grandes realizações evolutivas ou nos deter e atrasar nosso crescimento espiritual.

Refletir, analisar e comandar os pensamentos é receita de saúde e bem-estar. Conforme nos diz Emmanuel no livro Fonte viva, habitamos nossa casa mental, vivendo a cada dia as consequências vibratórias das nossas certezas, crenças, convicções e escolhas e, podemos acrescentar, que nos ligando a outras mentes, esta casa mental recebe as visitas de acordo com nossos interesses e objetivos.

Tomemos o cuidado para sempre tentarmos a sintonia com o mais Alto, com o Bem, e o Amor, pois só assim nossas mentes estarão unidas com a mente criadora de Deus.

Umberto Fabbri

Fonte: correio.news

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A Ciência e o Espiritismo

Allan Kardec

cienciaeespiritismo

Para muita gente, a oposição das corporações científicas constitui, senão uma prova, pelo menos forte presunção contra o que quer que seja. Não somos dos que se insurgem contra os cientistas, pois não queremos dar azo a que de nós digam que escouceamos. Temo-los, ao contrário, em grande apreço e muito honrados nos julgaríamos se fôssemos contados entre eles. Suas opiniões, porém, não podem representar, em todas as circunstâncias, uma sentença irrevogável.

Desde que a Ciência sai da observação material dos fatos, e trata de os apreciar e explicar, o campo está aberto às conjeturas. Cada um arquiteta o seu sistemazinho, disposto a sustentá-lo com fervor, para fazê-lo prevalecer. Não vemos todos os dias as mais opostas opiniões serem alternadamente preconizadas e rejeitadas, ora repelidas como erros absurdos, para logo depois aparecerem proclamadas como verdades incontestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem sensato.

Com relação às coisas notórias, a opinião dos cientistas é, com toda razão, fidedigna, porquanto eles sabem mais e melhor do que o vulgo. Mas, no tocante a princípios novos, a coisas desconhecidas, essa opinião quase nunca é mais do que hipotética, visto que eles não se acham, menos que os outros, sujeitos a preconceitos. Direi mesmo que o cientista tem, talvez, mais preconceitos que qualquer outro, porque uma propensão natural o leva a subordinar tudo ao ponto de vista donde mais aprofundou os seus conhecimentos: o matemático não vê prova senão numa demonstração algébrica, o químico refere tudo à ação dos elementos, etc. Aquele que se fez especialista prende todas as suas ideias à especialidade que adotou. Tirai-o daí e o vereis quase sempre desarrazoar, por querer submeter tudo ao mesmo cadinho: consequência da fraqueza humana. Assim, pois, consultarei, do melhor grado e com a maior confiança, um químico sobre uma questão de análise, um físico sobre a potência elétrica, um mecânico sobre uma força motriz. Hão, porém, de permitir-me, sem que isto afete a estima a que lhes dá direito o seu saber especial, que eu não tenha em melhor conta suas opiniões negativas acerca do Espiritismo, do que o parecer de um arquiteto sobre uma questão de música.

As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular livremente; os fenômenos espíritas repousam na ação de inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se acharem subordinadas aos nossos caprichos. As observações não podem, portanto, ser feitas da mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida. Querer submetê-las aos processos comuns de investigação é estabelecer analogias que não existem. A Ciência, propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter. O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal, que os cientistas, como indivíduos, podem adquirir, abstração feita da qualidade de cientistas. Pretender deferir a questão à Ciência equivaleria a querer que a existência ou não da alma fosse decidida por uma assembleia de físicos ou de astrônomos. Com efeito, o Espiritismo está todo na existência da alma e no seu estado depois da morte. Ora, é soberanamente ilógico imaginar-se que um homem deva ser grande psicologista, porque é eminente matemático ou notável anatomista. Dissecando o corpo humano, o anatomista procura a alma e, porque não a encontra, debaixo do seu escalpelo, como encontra um nervo, ou porque não a vê evolar-se como um gás, conclui que ela não existe, colocado num ponto de vista exclusivamente material. Segue-se que tenha razão contra a opinião universal? Não. Vedes, portanto, que o Espiritismo não é da alçada da Ciência.

Quando as crenças espíritas se houverem divulgado, quando estiverem aceitas pelas massas humanas (e, a julgar pela rapidez com que se propagam, esse tempo não vem longe), com elas se dará o que tem acontecido a todas as ideias novas que encontraram oposição: os cientistas se renderão à evidência. Lá chegarão, individualmente, pela força das coisas. Até então será intempestivo desviá-los de seus trabalhos especiais, para obrigá-los a se ocuparem com um assunto estranho, que não lhes está nem nas atribuições, nem no programa. Enquanto isso não se verifica, os que, sem estudo prévio e aprofundado da matéria, se pronunciam pela negativa e escarnecem de quem não lhes subscreve o conceito, esquecem que o mesmo se deu com a maior parte das grandes descobertas que fazem honra à Humanidade. Expõem-se a ver seus nomes alongando a lista dos ilustres proscritores das ideias novas e inscritos a par dos membros da douta assembleia que, em 1752, acolheu com retumbante gargalhada a memória de Franklin sobre os para-raios, julgando-a indigna de figurar entre as comunicações que lhe eram dirigidas; e dos daquela outra que ocasionou perder a França as vantagens da iniciativa da marinha a vapor, declarando o sistema de Fulton um sonho irrealizável. Entretanto, essas eram questões da alçada daquelas corporações. Ora, se tais assembleias, que contavam em seu seio a elite dos cientistas do mundo, só tiveram a zombaria e o sarcasmo para ideias que elas não compreendiam, ideias que, alguns anos mais tarde, revolucionaram a ciência, os costumes e a indústria, como esperar que uma questão, alheia aos trabalhos que lhes são habituais, alcance hoje das suas congêneres melhor acolhimento?

Embora deploráveis, esses erros de alguns homens de ciência não poderiam privá-los dos títulos que a outros respeitos conquistaram à nossa estima. Mas será precisa a posse de um diploma oficial para se ter bom-senso? Dar-se-á que fora das cátedras acadêmicas só se encontrem tolos e imbecis? Dignem-se de lançar os olhos para os adeptos da doutrina espírita e digam se só com ignorantes deparam e se a imensa legião de homens de mérito que a têm abraçado autoriza seja ela atirada ao rol das crendices de simplórios. O caráter e o saber desses homens dão peso a esta proposição: pois que eles afirmam, forçoso é reconhecer que alguma coisa há.

Repetimos mais uma vez que, se os fatos a que aludimos se houvessem reduzido ao movimento mecânico dos corpos, a indagação da causa física desse fenômeno caberia no domínio da Ciência. Como, porém, se trata de manifestações que se produzem fora do âmbito das leis já descobertas pelos homens, elas escapam à competência da ciência material, visto não poderem exprimir-se nem por números, nem por uma força mecânica. Quando surge um fato novo, que não guarda relação com nenhuma ciência conhecida, o cientista, para estudá-lo, tem que abstrair da sua ciência e dizer a si mesmo que o que se lhe oferece constitui um estudo novo, impossível de ser feito com ideias preconcebidas.

O homem que julga infalível a sua razão está bem perto do erro. Mesmo aqueles cujas ideias são as mais falsas se apoiam na sua própria razão, e é por isso que rejeitam tudo o que lhes parece impossível. Os que outrora repeliram as admiráveis descobertas de que a Humanidade se honra, todos endereçavam seus apelos a esse juiz, para repeli-las. O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus. Dirigimo-nos, pois, aos que são suficientemente ponderados para duvidar do que não viram, e que, julgando do futuro pelo passado, não creem que o homem haja chegado ao apogeu nem que a Natureza lhe tenha facultado ler a última página do seu livro.

Fonte: Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita. VII. A Ciência e o Espiritismo

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O que é Reencarnação

Sergio F. Aleixo

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1.1 — Metempsicose

Lemos no “Vocabulário Espírita”: “Reencarnação — Volta do espírito à vida corpórea, pluralidade das existências”. (O Livro dos Médiuns, XXXII.)

Embora essa palavra, salvo melhor juízo, tenha surgido em meados do século XIX nas obras de Allan Kardec, o conceito de reencarnação da alma não é recente, existe há milênios. (Veja-se o nosso livro Reencarnação: lei da Bíblia, lei do Evangelho, lei de Deus (Lachâtre, 1999).)

O espiritismo, porém, não assimilou o conceito de reencarnação de doutrinas preexistentes. Como aconteceu a todos os seus princípios, os espíritos é que o proclamaram. Entendendo haver lógica no ensino reencarnacionista dos espíritos reveladores, Kardec, segundo seu método específico de codificação, elevou esse ensinamento à condição de princípio espírita. (Cf. KARDEC, O Livro dos espíritos. Parte segunda, V – Considerações sobre a pluralidade das existências. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, II — Autoridade da doutrina espírita. Controle universal do ensino dos espíritos.)

A origem das espécies (Charles Darwin, 1859) há de ter sido determinante para que o codificador do espiritismo desse como verdadeiras certas instruções que só vieram a constar da segunda e definitiva edição de O Livro dos Espíritos (1860), as quais explicam a ontogênese mediante a filogênese. Isto é, o princípio inteligente da criação, de que é constituído o próprio espírito humano, elabora-se nos reinos inferiores da natureza, numa rota evolutiva, sem solução de continuidade, “desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo [o arcanjo] começou pelo átomo”. (O Livro dos Espíritos, 540. Tradução de J. Herculano Pires, LAKE, 55ª ed., 1996. Cf. 607 e 607-a. Colchetes nossos.)

Vale bem salientarmos isso, porque, uma vez ou outra, ainda há notícias de certa confusão sobre o princípio das vidas sucessivas. As doutrinas orientais não possuem, nem poderiam originalmente possuir, o conceito de evolução. É assim que, não raro, elas têm da reencarnação idéias diferentes da que a doutrina dos espíritos proclama como lei natural. A metempsicose é um exemplo disso, admitindo a volta da alma humana em corpos animais, vegetais e até minerais…

O espiritismo ensina que o espírito passa a primeira fase do seu desenvolvimento numa série de existências anteriores ao período a que chamamos humanidade. (Ibid., 607.) Portanto, a alma humana foi o princípio inteligente dos seres inferiores da criação. Em razão disso, afirmam os espíritos que tudo na natureza se encadeia e tende para a unidade, que nesses seres inferiores, cuja totalidade estamos longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida. Segundo eles, trata-se de um trabalho preparatório, semelhante ao da germinação. O princípio inteligente sofre, assim, uma transformação, e se torna espírito. (Ibid., 607-a.)

[Kardec:] Poderia encarnar num animal o espírito que animou o corpo de um homem?

[Espíritos:] “Isso seria retrogradar e o espírito não retrograda. O rio não remonta à sua nascente.” (Ibid., 612. Colchetes nossos.)

1.2 — Carma

Outra dificuldade quanto às vidas sucessivas está numa palavra que nunca foi utilizada por Allan Kardec na Codificação do espiritismo. Trata-se do vocábulo carma — do sânscrito karman, “ação”. Os pouco estudiosos costumam empregá-la apenas num mau sentido, num sentido negativo: uma dívida do passado a ser paga no presente. Mas o carma pode igualmente ser bom, positivo.

Num ponto de vista mais global, tudo depende do conjunto de nossas ações pretéritas, do “saldo”, digamos assim, de bem e de mal que temos em nossa “conta”. Se tivermos em nosso passado mais méritos que deméritos, teremos uma “conta” cármica de saldo azul, positiva; se mais deméritos que méritos, uma “conta” cármica com saldo vermelho, negativa.

Embora a palavra carma não conste do vocabulário kardeciano, o espiritismo confirma a verdade essencial por ela expressa: o passado criou o presente e este gera o futuro.

“Por meio da pluralidade das existências, o espiritismo ensina que os males e aflições da vida são muitas vezes expiações do passado, bem como que sofremos na vida presente as conseqüências das faltas que cometemos em existência anterior e, assim, até que tenhamos pago a dívida de nossas imperfeições, pois que as existências são solidárias umas com as outras.” (KARDEC, A Gênese, XV:15.)

Observe-se que o codificador não atribui todas as vicissitudes do presente a delitos de vidas passadas. Isso se dá muitas vezes. Quer dizer que nem sempre é assim!

Em espiritismo, a reencarnação é necessária por ser o meio de evolução do espírito. Ela não existe para que o espírito sofra, mas a fim de que ele evolua rumo à perfeição a que fatalmente se destina. Qualquer masoquismo é patológico e longe está de ser uma responsabilidade da doutrina espírita.

O fato é que a reencarnação tem um objetivo: a perfeição espiritual, que não pode ser atingida sem que o espírito passe por provas e, eventualmente, na proporção exata dos males praticados, por expiações. Esta é a lei. Agrade-nos ou não. (Cf. KARDEC, O livro dos espíritos. Introdução, VI e VII.)

A doutrina é muito precisa em estabelecer que nem todo sofrimento por que passamos neste mundo resulta de uma determinada falta no passado. O espírito também busca “simples provas para concluir a sua depuração e ativar o seu progresso”, o que levou Kardec a dizer que “a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação”. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, V:9. O Livro dos Espíritos, 268.)

Portanto, há três campos a considerar no que respeita a tudo que nos sobrevém nesta vida: as existências anteriores, a existência atual e os períodos entre vidas, chamados erraticidade. Nestes últimos, dependendo da situação em que se encontre, o espírito é capaz de escolher os gêneros das provas — expiatórias ou não — que melhor o conduzirão a superar-se, para avançar na evolução. (Cf. KARDEC, O Livro dos Espíritos, 871.)

A causa primordial da reencarnação, segundo o espiritismo, não está nas faltas eventualmente cometidas, mas na necessidade geral que os espíritos têm de evoluir para a perfeição a que todos igualmente se destinam. A reencarnação é, portanto, o meio de eles progredirem, não propriamente de serem punidos. (Cf. KARDEC, O Livro dos Espíritos, 133. A Gênese, XI:26.)

1.3 — O Retorno

Muitas são as conjecturas acerca da união entre a alma e o corpo. Quando e como aconteceria essa ligação?

No entender espírita, considerado em sua essência, o espírito propriamente dito constitui um ser abstrato e, portanto, indefinido. Por essa razão, não pode ele ter “ação direta” sobre a matéria. Assim, necessita para tanto de um intermediário. Tal mediador é o seu envoltório fluídico, ou perispírito. Segundo Kardec, esse revestimento é “semimaterial”, porquanto “pertence à matéria pela sua origem e à espiritualidade pela sua natureza etérea”. (A Gênese, XI:17-18.)

O fluido perispirítico, ou seja, a energética do corpo espiritual, possibilita, assim, a união entre o espírito e a matéria. Enquanto a alma está ligada ao corpo físico, o perispírito serve de veículo ao pensamento, transmite movimento às diversas partes do organismo e, por outro lado, também faz que tenham repercussão na alma as sensações que os agentes materiais produzem.

No momento em que o espírito se reencarna, um “laço fluídico”, “expansão do seu perispírito”, une-o ao óvulo fecundado. À medida que o embrião se desenvolve, esse “laço” se encurta. É assim que, no dizer de Kardec, “o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, ao corpo em formação”. Desse modo, o espírito, por meio de seu perispírito, liga-se ao organismo, à semelhança de uma planta enraizando-se na terra. (Id., ibid.)

1.4 — Nexos Causais

Focalizando dois temas algo palpitantes: vícios e genética, talvez possamos expor de uma forma mais ilustrada os nexos causais que impregnam o pensamento reencarnacionista espírita.

1.4.1 — Vícios

O homem, como já vimos, não é apenas um ser biológico e social, mas fundamentalmente um ser moral e espiritual, um conjunto de fatores combinados e intimamente relacionados.

Todos os movimentos psíquicos, ou seja, da alma ou espírito, que é um foco imortal de inteligência e consciência, ficam dinamicamente “registrados” no seu perispírito.

Podemos dizer que os vícios, do mesmo jeito que as paixões, resultam do “excesso de que se acresceu a vontade” (KARDEC, O Livro dos Espíritos, 907), ou seja, que são eles o produto de uma vontade desregrada pela indisciplina, quer nesta, quer noutras vidas.

A única coisa capaz de comprometer o perispírito é a vontade mal dirigida, a vontade mobilizada pela alma em desrespeito às leis morais que regulam a natureza espiritual da vida. Disfunções no corpo perispirítico são os resultados disso.

Preexistimos, com nosso corpo espiritual, à fecundação do óvulo. Durante todo o processo embriogenético e a própria vida extra-uterina, esse nosso corpo perispirítico constrói o corpo físico em que reencarnamos. Se o perispírito apresenta anomalias, resultantes de vícios cultivados no passado recente ou remoto, mais cedo ou mais tarde elas se manifestarão. Trata-se do princípio psicossomático.

Os vícios, em seus aspectos físicos e morais, são causa de disfunções do perispírito; constituem verdadeiros atentados contra a lei de conservação do organismo terrestre, exposta na Parte terceira de O Livro dos Espíritos, em seu Capítulo V.

O corpo de carne é um instrumento de evolução do espírito; merece, portanto, para o bem do próprio corpo fluídico que o vivifica, o respeito de uma vida regrada, seja física, seja moralmente.

Dizemos isso porque os espíritos, somente por desencarnarem, não se livram dos vícios, das paixões que na Terra cultivaram. Segundo Léon Denis [1846-1927]: “As necessidades procedem do corpo e com ele se extinguem. Os desejos e as paixões são do espírito e o acompanham”. (No invisível, cap. XIX, p. 258.)

Os desejos e as paixões mais não são do que elaborações psíquicas construídas a partir da exposição do espírito às necessidades corporais. As necessidades são do corpo, com ele terminam. Porém, as elaborações psíquicas que resultam da exposição do espírito às necessidades corporais — elaborações que constituem os desejos, e, num nível deletério, as paixões — são da alma, permanecem, sobrevivem à morte biológica.

Não devemos, por isso, acrescer de excessos a vontade que mobilizamos na satisfação de nossas necessidades e desejos. Essa vontade, porque acrescida de excessos, mobilizada em demasia, transforma-se numa paixão, escraviza-nos à matéria pelas teias do vício, e faz-nos, enfim, padecer enfermidades. Estas últimas, na sabedoria infinita de Deus, provocam um aprendizado que nos reabilitará — espíritos que somos — perante a harmonia das leis cósmicas, que funcionam numa sincronia infalível, de absoluta integração entre o físico e o moral.

“Toda paixão que aproxima o homem da natureza animal afasta-o da natureza espiritual. Todo sentimento que eleva o homem acima da natureza animal denota predominância do espírito sobre a matéria e o aproxima da perfeição.” (KARDEC, O Livro dos Espíritos, 908.)

O consumo de drogas, permitidas ou proibidas, e os hábitos sexuais ou alimentares desregrados podem ser comparados a golpes de vibrações inferiores da alma sobre o seu próprio perispírito. Essas vibrações expressam atitudes mentais enfermiças. Pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier, o espírito André Luiz assegurou que elas criam bacilos psíquicos, corpúsculos negros semelhantes a larvas, verdadeiras feras microscópicas, que comprometem os centros da vitalidade orgânico-espiritual, sendo causa de várias patologias. (No Mundo Maior, cap. XIV, p. 196. Os Mensageiros, cap. 40, p. 211. Missionários da Luz, caps. 3 e 4.)

Entretanto, pode-se não cultivar estes vícios sobre os quais tradicionalmente incide a censura social, ou seja, pode-se não beber, não fumar, não falar palavrões, etc., e mesmo assim se ter um perispírito degradado, por exemplo, pela inveja, pelo ciúme, pela cólera, pelo rancor, pelo sensualismo, pela gula; enfim, pelos desequilíbrios socialmente invisíveis, mas vibratoriamente indisfarçáveis.

Toda atitude mental negativa compromete não só o perispírito que a expressa como os ambientes em que esse corpo espiritual vibra. Como já vimos, o perispírito está “encaixado” no corpo material, mas, sendo fluídico (energético), manifesta-se em volta da carne, donde influencia as ambiências externas. Compreende-se, desse modo, outro fato relatado pelo espírito André Luiz, o das aglutinações de matéria mental inferior, expelida por certa classe de pessoas. Essas aglutinações flutuam em grupos compactos pelas vias públicas, sendo, por vezes, atraídas pelos transeuntes em obediência à lei das afinidades. (Os Mensageiros, cap. 40, pp. 210-11.)

André Luiz conta-nos também um triste caso de obsessão espiritual gerada pelo alcoolismo. Quatro entidades embrutecidas se revezavam na absorção das emanações alcoólicas do aparelho digestivo de uma pessoa completamente embriagada… O quadro era tão estarrecedor que André Luiz afirma não saber se estava diante de uma pessoa embriagada ou de uma “taça viva”, cujo conteúdo era sorvido por “gênios satânicos”. (No Mundo Maior, cap. XIV, p. 196.)

O mesmo ocorre, mais ou menos gravemente, no que diz respeito a outros vícios. Ninguém os cultiva sozinho! Também por isso disse Jesus: “Vigiai e orai”. (Mateus 26:41.)

1.4.2 — Genética

Todas as coisas estão interligadas. Nada é por acaso. Mesmo a constituição genética, a tão evocada hereditariedade, relaciona-se ao histórico espiritual de cada um, quer em seus aspectos positivos, quer negativos.

A reencarnação é um movimento morfogenético. O perispírito constitui fator decisivo de influência sobre os fenômenos embriológicos e vitais. Se um espírito, no seu perispírito, traz as resultantes dessas ou daquelas vicissitudes cultivadas em suas encarnações pretéritas, pode acontecer que se veja constrangido a manifestá-las mediante estruturas biológicas comprometidas. Muitas vezes, isso é necessário para depurar o corpo perispirítico e tornar mais consciente o ser imortal.

O próprio espírito é quem arregimenta as possibilidades genéticas oferecidas pelos gametas de seus pais, possibilidades que, evidentemente, estão relacionadas à sua condição perispirítica, na qual figuram dinamicamente “inscritos” os seus “registros” causais.

O espírito recebe dos pais terrenos o material genético; porém, ele é quem discrimina, combina e influencia a estrutura íntima desse material. A reencarnação obedece, portanto, a princípios de compatibilidade, de afinidade.

Sob eventual influência de espíritos-guias, o reencarnante, por meio do perispírito, exerce uma espécie de ação discriminatória dos genes paternos e maternos, para que sejam estes, conforme seus imperativos cármicos, os adequados instrumentos de sua manifestação corpórea na Terra.

O fato é que nós, espíritos, interagindo com o meio ambiente, também concorremos para as mutações genéticas que ocasionam a evolução biológica. O acaso não existe! Isto se dá pelas múltiplas reencarnações, nas particularidades da interatividade entre a energia (perispírito) e a matéria (corpo físico). Assim, construímos as estruturas cromossômicas mediante as quais nos temos manifestado, sempre recebendo da vida exatamente o que a ela demos.

O passado espiritual determina, portanto, a parte da obra multimilenar da evolução biológica que cabe a cada ser humano reencarnante na Terra. Se lhe é outorgada a saúde ou a doença, a capacidade ou a incapacidade, vale uma vez mais o princípio cristão que estabelece: “A cada um, segundo suas obras”.

Em espiritismo, a hereditariedade está, como se vê, no campo dos efeitos e não no das causas. O perispírito é o modelo da organização biológica; a fôrma, por assim dizer, das formas corpóreas; um fator decisivo para a futura vitalidade física do reencarnante.

Podemos dizer sem medo que, do ponto de vista genético, o perispírito estabelece afinidade com os tipos de cromossomos e genes que a maneira de viver do espírito construiu e constrói no processo da sua contínua evolução, sempre em dois mundos: físico e extrafísico.

“(…) em virtude de cada espírito representar um universo por si, cada um de nós é responsável pela emissão das forças que lançamos em circulação nas correntes da vida. A cólera, o desespero, o ódio e o vício oferecem campo a perigosos germens psíquicos na esfera da alma. (…) Cumpre reconhecer que nós mesmos, em todo o curso das experiências terrestres, na maioria das ocasiões, fomos campeões do endurecimento e da perversidade contra as nossas próprias forças vitais. Entre abusos do sexo e da alimentação, desde os anos mais tenros, nada mais fazíamos que desenvolver as tendências inferiores, cristalizando hábitos malignos. Seria, pois, de admirar tantas moléstias do corpo e degenerescências psíquicas?” (ANDRÉ LUIZ (espírito). Missionários da Luz, cap. 4, pp. 38-39. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.)

Vemos assim que as doenças, sobretudo em seus aspectos expiatórios, têm por causas primeiras a cólera, o desespero, o ódio e o vício. O espiritismo, então, como nenhuma outra doutrina, demonstra que correlatas às leis físicas existem leis morais, um perfeito intercâmbio entre o conhecimento exato e a ação justa; a ciência e a consciência; a razão e a fé.

Sergio F. Aleixo

ADE-RJ

Fonte: espiritualidades.com.br

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Espiritismo e Política

“Para que o mal triunfe, basta que os bons cruzem os braços”

Por Eliana Haddad

Luís Eduardo Girão, senador, empresário e espírita

Luís Eduardo Girão, senador, empresário e espírita

“Para que o mal triunfe, basta que os bons cruzem os braços”. A frase é do filósofo e político irlandês Edmund Burke. Uma reflexão que enaltece a importância da disposição daqueles que acreditam e agem para a construção de um mundo melhor. Há mais de 10 anos, o empresário espírita Eduardo Girão engajou-se nos bastidores da política, posicionando-se a favor da vida, no momento em que a tentativa de se descriminalizar o aborto tomava fôlego no país. Eleito senador pelo Ceará na últimas eleições, ele fala sobre os desafios a serem enfrentados nesse delicado momento por que passa o País e conta o que o motivou logo na primeira semana de trabalhos no Senado a desarquivar a Proposta de Emenda à Constituição da Vida para adicionar ao texto a questão da vida ser inviolável desde o momento da sua concepção.

Empresário, ex-presidente do Fortaleza Esporte Clube, produtor de cinema e teatro, o que o levou a entrar também para a política?

A vida foi me convidando para o serviço. Mal sabia que a espiritualidade estava me reservando a entrada na política, por mais que relutasse a minha vida inteira, embora atuasse em seus bastidores pela preservação de causas humanas, na defesa da vida, contra o aborto, contra as drogas, contra a jogatina e as armas de fogo. Sempre fui muito tímido e nunca passou pela minha cabeça um dia me candidatar a nada, apesar de muitos convites. Até que em 14 de fevereiro de 2018, passei por uma situação familiar, no exterior, muito dramática. Um garoto entrou na escola da minha filha com uma arma de fogo, disparou, matando 17 adolescentes e professores. Ela foi poupada e estava bem próxima de tudo. Para mim, ali, foi o chamamento. Por gratidão a Deus, cresceu em mim a vontade de retribuir, trabalhando para o meu semelhante. E senti que a política era algo que não poderia deixar de tentar.

Como foi a preparação para ser senador da República com mais de um milhão de votos?

Inesperado. Penso que Deus usou as pessoas de bem, de bom coração, que queriam mudança e que queriam renovação. Não tenho dúvida de que houve aí algo muito transcendental, o que aumenta a minha responsabilidade de fazer o que é certo e me dedicar no limite das minhas forças, como ensina a questão 642, de O livro dos espíritos. Nunca tinha sido candidato a nada, nem a síndico de prédio, e acabei senador eleito pelo Estado do Ceará, terra de doutor Bezerra de Menezes, o grande político humanista, em quem muito me espelho e longe do qual estou a anos-luz. Estou entusiasmado, com muita vontade de acertar.

Como espírita, em que o senhor se diferenciou na sua campanha?

Combatemos o bom combate, dentro da ética, dentro dos nossos princípios e valores durante a campanha. Apesar de ter visto os que queriam ganhar a todo custo, e mesmo sabendo da dificuldade que seria uma eleição dessa, em que todos diziam que eu deveria mostrar as falhas do outro lado, ser mais agressivo, eu disse: se for para ganhar assim, prefiro não ganhar. Vamos trabalhar com a nossas armas, com ética, serenidade. Se tivesse que acontecer, a espiritualidade colocaria a mão.

Que diferença pode fazer um espírita no Senado?

Colocar em prática aquilo que já sabe e acredita, sem querer doutrinar ninguém. Sem querer ser dono da verdade, retratando nas suas atitudes as verdades que conhece da relação entre os mundos espiritual e material, da vida após a morte. Tudo com paciência, respeito, compreendendo cada um como sendo um filho de Deus, um irmão em Cristo. Por mais que tenham um passado de erros, temos que acreditar no ser humano e não julgar. Meu objetivo é servir, mas também me melhorar. Saber ouvir, tentar tocar o coração dessas pessoas sobre algumas pautas, que pensamos diferente, tentando levar outro olhar sobre algumas questões e lembrando que estamos plantando algo do qual depois iremos sofrer suas consequências. É preciso tentar fazer a diferença, posicionando-se com coragem e não abrir mão de certos princípios. A guerra é espiritual, ela não é entre os homens, não é material. No Congresso Nacional, a energia é densa, de muitos interesses. Conto com as vibrações positivas de todos, para que tenhamos cada vez mais próxima a Regeneração e que o Brasil se torne o coração do mundo, a Pátria do Evangelho.

Como o senhor avalia a participação dos espíritas na política?

Já tivemos grandes parlamentares espíritas no Brasil: Eurípedes Barsanulfo, Freitas Nobre, Cairbar Schutel, Bezerra de Menezes, muitos nomes que são referências e que foram também passíveis de erros, como todos nós. É uma grande prova e a gente procura se espelhar nesses grandes homens de bem que por aqui passaram, tentando enfrentar nossas limitações e imperfeições, refletindo sobre o que Jesus faria em algumas situações. Vivemos um momento muito importante, tempos realmente de grande renovação.

Como conciliar ideais políticos pessoais com as direções partidárias?

Vejo isso de forma muito tranquila, porque é bom ouvir um grupo partidário, estar numa agremiação, mas jamais vou abrir mão da minha liberdade, dos valores, dos princípios que me norteiam. Acredito também que é importante ter candidaturas avulsas, independentes. Você não precisa entrar em partido para disputar uma eleição. Isso é muito democrático, já acontece em outros países, um avanço no meu ponto de vista. Já tentei fundar com um grupo de pessoas de São Paulo, do Nordeste e de outros estados um partido político, o PAZ, dedicado a ativistas da paz, pela vida. Quem sabe esse partido possa ocorrer nos próximos anos.

Como a bancada do Senado tem visto o senhor, como espírita?

As pessoas me respeitam muito. Não sou de ficar me rotulando ou rotulando algum colega porque é evangélico ou católico. Procuro colocar na prática o que a gente acredita, e alguns deduzem, perguntam qual a minha religião e aí eu digo. Muitos até acham que sou de outra corrente religiosa, porque falo muito em Deus e em Jesus e essa ousadia está mais marcada de uma forma pública pelos evangélicos. É muito interessante esse relacionamento e acho que temos que andar juntos, católicos, evangélicos, espíritas, budistas. Temos que ver o que nos une, ampliar as nossas convergências. O aborto não foi legalizado no Brasil graças a essa união

Como se tornou um ativista a favor da vida?

O assunto do aborto e das armas de fogo me tocaram profundamente a alma em 2003, depois de contatos com parlamentares, pela curiosidade de saber como poderia ser essa defesa da vida. Então me senti chamado para servir. É muito bacana isso, a oportunidade de aprendizado, de participar de marchas, de fazer filmes, de fazer documentários, peças de teatro, palestras, seminários. Isso foi me trazendo muita luz, conhecimento, motivação para levar para as pessoas um outro olhar.

Logo nas primeiras sessões do Senado deste ano, o senhor conseguiu paralisar a pauta de aprovação do aborto no Brasil. Quais os próximos passos?

Tivemos a bênção de resgatar a Proposta de Emenda à Constituição da Vida (nº29, de 2015), que coloca como cláusula pétrea que o direito à vida é inviolável ‘desde a concepção’. Esse complemento acaba judicialmente com as tentativas de se legalizar o aborto. O povo brasileiro já disse que os valores dele são contra o aborto. E nós estamos aqui para legislar. Será uma grande conquista para que o Brasil não manche a sua linda bandeira com o sangue de inocentes, e de mulheres, porque no aborto não é apenas a criança que é vítima, que é assassinada, mas também a mulher, que fica com traumas, de ordem mental, psicológica, emocional e física. Com propensão a crises de depressão, ansiedade, a maior envolvimento com álcool e drogas e até o suicídio.

Qual sua análise sobre o momento atual do Brasil?

Houve uma grande transformação no Congresso, especialmente no Senado. É um momento riquíssimo. Mas ao mesmo tempo muito delicado, porque não podemos transformar Brasília em uma ‘Bastilha’. Os poderes estão sendo investigados. Há uma demanda da sociedade brasileira. São denúncias robustas. E o único poder que tem a prerrogativa para fazer isso é o legislativo através do senado. Estamos vivendo um problema grave de crise política, econômica e social, com 13 milhões de desempregados. Mas a mãe de todas crises é a crise moral e essa deve ser debelada prioritariamente.

Como os espíritas podem participar mais ativamente na condução das pautas político-sociais e econômicas do Brasil?

Pelos conhecimentos que possui da encarnação, da comunicação com os Espíritos, da pluralidade das existências, dessa relação do mundo espiritual e material, causa e efeito. Os espíritas têm papel fundamental na condução do país. Acho que nós tivemos algum problema em outras vidas por utilização equivocada no poder e do dinheiro e hoje a gente fica muito receoso de errar de novo. Penso que o espírita tem que participar da política. Não podemos nos omitir. O estadista, Edmundo Burke (1729-1797) tem uma frase bastante interessante: “Para que o mal triunfe, basta que os bons cruzem os braços”. Platão, antes de Cristo, também disse que “o destino das pessoas boas e justas que não gostam de política é serem governadas por pessoas não tão boas e não tão justas que gostam de política”. É um convite ao serviço, a fazer a caridade em maior escala através da política humana, uma grande oportunidade. A gente sabe do trabalho que os espíritas têm desenvolvido nas outras áreas sociais, no terceiro setor. Chegou a hora de entrar na política, com coragem e responsabilidade, não focando em nichos espíritas para se eleger, mas em colocar as ideias aos diversos públicos.

Num exercício de visão de futuro, o que o senhor pretende ter realizado ao final do seu mandato?

Peço a Deus que depois desses oito anos eu possa ter cumprido tudo que eu puder fazer no limite das minhas forças. Tudo o que você planta, você colhe. Que eu possa entregar uma sociedade mais justa, mais fraterna para nossos filhos e netos, mais espiritualizada, com menor desigualdade, com princípios, valores definidos, as pessoas com maior despertar de consciência nesses debates, com novas leis. Espero corresponder a toda essa generosidade da espiritualidade e à confiança em mim depositada. Que tenhamos sabedoria, saúde, discernimento e vontade de fazer o que tem de ser feito. E, daqui a oito anos, que eu possa voltar para minha família, para uma atividade de bastidores, dentro do meu tempo, com liberdade. Mas até lá, quero entrar de cabeça, me dedicar nesses anos importantes da minha vida. Tenho 46 anos. Se Deus permitir, com 54 anos poderei fazer outras reflexões da vida, outros trabalhos também. O Brasil precisa de muitas orações a seus governantes e ministros. Com amor, trabalho e fé, vamos chegar lá. Assim espero.

(Artigo original publicado no Jornal Correio Fraterno)

Fonte: correio.news

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