QUEM É O CHEFE DO ESPIRITISMO ?

Donizete Pinheiro

O Espiritismo não tem chefe e nem representante legal. Por isso, no seu aspecto institucional, diferencia-se essencialmente de todas as outras religiões. É que, na essência, a religião é uma consequência moral das conclusões cientificas e filosóficas da Doutrina Espírita, cujo objeto é o estudo dos espíritos, sua vida e suas manifestações entre nós.

Como fatos naturais que são, os fenômenos espirituais podem ser pesquisados por qualquer pessoa, que tirará por si as suas conclusões. Existe, por ventura, o chefe da química, da física, da astronomia ou da biologia? É claro que não! Existem cientistas, pesquisadores que apresentam à humanidade o resultado de seus trabalhos, os quais podem ser acolhidos ou não. Uma teoria cientifica é aceita como verdade quando outros cientistas conseguem confirmá-la por suas próprias experiências, havendo então uma unanimidade quanto aos seus princípios e resultados.

É o que ocorreu com a Doutrina Espírita. Partindo dos fenômenos das mesas girantes, que tomaram conta da América do Norte e da Europa em meados do século dezenove, Allan Kardec estabeleceu as bases do Espiritismo, que foram confirmadas por cientistas e filósofos dele contemporâneos, como Lombroso, Gabriel Delanne, Alexandre Aksakof, Gustavo Geley, Ernesto Bozzano e Leon Denis, e que atualmente foram reforçadas por médicos, psicólogos e estudiosos, como Welen Wambarch, Roger J. Woolger, Hermani Guimarães Andrade e Hermínio Miranda.

O avanço de ciência, com a invenção de aparelhos mais sensíveis, certamente fornecerá as provas cabais de realidade espiritual, pondo por terra as críticas dos incrédulos obstinados e negativistas por sistema. Como se costuma dizer: contra fatos não há argumento. É só questão de tempo. De resto, o que não for verdadeiro cairá por si mesmo.

Assim, cada centro espírita é uma célula independente. Seus participantes estudam e praticam a Doutrina Espírita conforme a compreendem. Em sua maioria, os centros espíritas oferecem ensinamentos de acordo com a base kardequiana. Alguns, porém, a deturpam; outros dão prioridade à mediunidade e suas reuniões têm por fim unicamente as manifestações dos espíritos; e outros, ainda, desprezam o fenômeno mediúnico e dedicam-se somente ao estudo da filosofia. Não raro, encontramos centros denominados espíritas, mas que misturam a prática espírita com rituais religiosos, como, por exemplo, os da Umbanda. Cabe ao povo escolher o que mais lhe convém.

No movimento espírita existem órgãos de unificação, como a Federação Espírita Brasileira, a USE-União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e as Federações de outros Estados, mas todas essas instituições têm por objetivo apenas a orientação e a colaboração aos centros espíritas, sem qualquer tipo de ingerência ou imposição.

A princípio perde-se em uniformidade, mas ganha-se em liberdade de consciência, em respeito à compreensão de cada um, pensamento compatível com o espírito democrático da Doutrina Espírita; e evita-se a opressão religiosa e dogmática, situação em que alguns impõem a muitos o que pensam, sem admitir discussão.

A Doutrina Espírita caminha lentamente e com dificuldades, mas cresce fincada na ação de pessoas que a escolheram livremente, que têm sua fé robustecida pelos fatos e pela razão, e que respeitam a crença do próximo, sabendo que a verdadeira religião é a do coração comungado com o Criador.

Donizete Pinheiro

Fonte: Espiritismo na Rede

Publicado em por admin | Deixe um comentário

CASAMENTO

Emmanuel

«Pergunta – Será contrário à lei da Natureza o casamento, isto é, a união permanente de dois seres?»

«Resposta – É um progresso na marcha da Humanidade.» Questão nº 695, de «O LIVRO DOS ESPIRITOS».

O casamento ou a união permanente de dois seres, como é óbvio, implica o regime de vivência pelo qual duas criaturas se confiam uma à outra, no campo da assistência mútua.

Essa união reflete as Leis Divinas que permitem seja dado um esposo para uma esposa, um companheiro para uma companheira, um coração para outro coração ou vice-versa, na criação e desenvolvimento de valores para a vida.

Imperioso, porém, que a ligação se baseie na responsabilidade recíproca, de vez que na comunhão sexual um ser humano se entrega a outro ser humano e, por isso mesmo, não deve haver qualquer desconsideração entre si.

Quando as obrigações mútuas não são respeitadas no ajuste, a comunhão sexual injuriada ou perfidamente interrompida costuma gerar dolorosas repercussões na consciência, estabelecendo problemas cármicos de solução, por vezes, muito difícil, porquanto ninguém fere alguém sem ferir a si mesmo.

Indiscutivelmente, nos Planos Superiores, o liame entre dois seres é espontâneo, composto em vínculos de afinidade inelutável. Na Terra do futuro, as ligações afetivas obedecerão a idêntico princípio e, por antecipação, milhares de criaturas já desfrutam no próprio estágio da encarnação dessas uniões ideais, em que se jungem psiquicamente uma à outra, sem necessidade da permuta sexual, mais profundamente considerada, a fim de se apoiarem mutuamente, na formação de obras preciosas, na esfera do espírito.

Acontece, no entanto, que milhões de almas, detidas na evolução primária, jazem no Planeta, arraigadas a débitos escabrosos, perante a Lei de Causa e Efeito e, inclinadas que ainda são ao desequilíbrio e ao abuso, exigem severos estatutos dos homens para a regulação das trocas sexuais que lhes dizem respeito, de modo a que não se façam salteadores impunes na construção do mundo moral.

Os débitos contraídos por legiões de companheiros da Humanidade, portadores de entendimento verde para os temas do amor, determinam a existência de milhões de uniões supostamente infelizes, nas quais a reparação de faltas passadas confere a numerosos ajustes sexuais, sejam eles ou não acobertados pelo beneplácito das leis humanas, o aspecto de ligações francamente expiatórias, com base no sofrimento purificador. De qualquer modo, é forçoso reconhecer que não existem no mundo conjugações afetivas, sejam elas quais forem, sem raízes nos princípios cármicos, nos quais as nossas responsabilidades são esposadas em comum.

Emmanuel

Médium: Francisco Cândido Xavier

Livro Vida e Sexo – 7

Publicado em por admin | Deixe um comentário

DEUS DIRIGE! CABE-NOS OBEDECER

Orson Peter Carrara

Não é castigo, nem capricho. Nem tampouco imposição. Meramente o volume de aflições e preocupações, enfermidades e desafios em andamento, significam experiências de amadurecimento. Deus criou a vida, as criaturas (seus filhos, que somos nós) e as sábias leis que dirigem a vida e seu funcionamento. Leis imutáveis, diga-se de passagem. Tais leis, soberanas, justas, sábias e especialmente misericordiosas, não estabelecem qualquer tipo de preferência ou privilégios, são para todos.

As adversidades em curso são apenas o reflexo de nossa rebeldia, no agir contra a lei. Ignoramos a lei, propositalmente ou a ela nos fazemos indiferentes – não é por falta de conhecimento, já não podemos alegar isso – e aí colhemos as consequências. Podemos semear a vontade, e colheremos os frutos da semeadura.

Preciso é ver a qualidade da semeadura, se ainda saturada de agressividade ou egoísmo, vaidade e seus lamentáveis desdobramentos.

Deus é absoluto, onipotente, onipresente, onisciente. Sabedoria e bondade em grau supremo, e permite as colheitas para aprendermos a semear o bem, que é lei que impera para tudo.

Deus tem o gerenciamento completo do Universo. Esse gerenciamento, repleto de amor, é didático e educativo.

A visão de premiação ou punição não existe na ação de Deus, tudo, porém tem consequência. Apenas colhemos consequências.

Portanto, observar a Lei de Amor é uma questão de inteligência. Tudo foi concebido para a felicidade dos filhos de Deus, nós é que ainda nos equivocamos por falta de amadurecimento.

Não é melhor obedecer à sabedoria de Deus?

Publicado em por admin | Deixe um comentário

A “MELHORA DA MORTE”

Rafaela Paes de Campos

A iminência do fim da existência terrestre é algo que sempre nos assusta. O fato de sermos Espíritas não atenua tal sentimento, eis que se habitamos este planeta ainda nos encontramos em estágio evolutivo apegado ao que é material. O corpo físico é matéria, e ver-se diante de uma possível separação daqueles que nos são caros, traz dor, ansiedade e muito sofrimento.

Perder um ente querido nunca será fácil. Quando entre nós há um enfermo num leito de hospital lutando por sua vida, memórias perpassam nossas mentes a fim de reviver bons momentos vividos. Amar alguém é sentimento poderoso, força da natureza, laços fortes de um passado incontável e, por isso, a compreensão de que a vida não acaba com a morte não possui o condão de amenizar a sensação de perda e impotência.

Quando alguém adoece e permanece em hospitais sendo tratado e amparado pela Medicina terrena, a família e os amigos permanecem em um constante estado de vigília. Os pensamentos estão sempre ligados ao doente e as orações se tornam fervorosas pedindo a cura e a oportunidade de seguir na vida lado a lado. Este é o pedido principal!

A mais conhecida das orações, e mais entoada por nós em momentos de desespero e desamparo, é o Pai Nosso, onde se diz “seja feita a Vossa vontade”. Na realidade, é algo que dizemos automaticamente, porque em momentos de crise como a doença do corpo físico, queremos que a NOSSA vontade seja feita. Pode soar rude, mas é uma realidade.

A finitude da vida é algo que nos acompanha desde o primeiro minuto de vida. Se pensarmos que carregamos uma bagagem invisível nas costas assim que adentramos a materialidade, o primeiro item que ela guarda é de que um dia morreremos. Vivemos dia após dia, confiantes de que o nosso dia e o dia dos que amamos está bem distante. Apesar de fazer parte inexorável de quem somos, a morte é sempre vista com medo.

Entretanto, os desígnios de Deus são maiores do que a nossa compreensão e apenas Ele sabe o que é melhor e necessário a cada um de nós. Quando a doença atinge o corpo físico e a esperança é de que a vida reine suprema sobre a malvada morte, família e amigos iniciam uma corrente de fé e oração para a recuperação do doente.

Sabemos que a oração tem uma força poderosíssima e tem o poder de arrombar as portas dos céus. Diante do dito perigo, “suportamos impacientemente as tribulações da vida; elas nos parecem tão intoleráveis que não compreendemos como podemos enfrenta-la” (KARDEC, 2018, p. 301).

A realidade é que estamos, com a força de um amor gigante, prendendo um Espírito que talvez se encontre no momento de sua partida. Ah, não devo orar então? Claro que deve, sempre! Entretanto, há que se orar aceitando que seja feita a VOSSA vontade! Por quê?

O processo de separação da alma e do corpo não é abrupto, não ocorre instantaneamente no instante em que se decreta a hora do óbito. É um processo gradual, um desatar, não romper. A alma ali encarnada, e em vias de partir, é amparada por uma Espiritualidade amiga que auxilia nesse momento.

Encarnar e desencarnar, os dois atos naturais da vida, são momentos de perturbação para o Espírito, eis que um guarda o medo da falha e o outro, o medo do desconhecido diante do véu do esquecimento. Assim sendo, em ambas as situações não estamos desamparados.

A oração é válida e necessária para auxiliar no momento da doença. Entretanto, a oração repleta de lamentos, sofrimento e desespero perturba o Espírito que luta para manter-se à matéria mesmo quando essa já não demonstre condições orgânicas para continuar. Precisamos ter em mente que o mesmo amor que sentimos é sentido por aquele a quem direcionamos nossos pensamentos, e ele sofre em nos ver sofrer.

Quando a partida é certa, então a Espiritualidade que assiste aquele Espírito permite uma melhora. Isso causa um grande alívio à família e amigos, sentimento que afrouxa, então, o desespero e dor, transformando orações em agradecimento pela situação. É aí que, “inexplicavelmente”, pouco tempo depois, este ente parte da vida terrena.

É a chamada melhora da morte. Nós já estamos familiarizados com ela, nós sabemos que ela existe, mas falar dela ou trazer ela à tona, é visto com maus olhos, como se estivéssemos desejando a morte de alguém.

Não, meus irmãos, não estamos desejando que ninguém morra. Mas a morte é parte da vida. Viver é morrer todos os dias. Sabemos da intervenção da Espiritualidade, e sabemos que ela possui os seus mecanismos para fazer com que o que precisa acontecer, aconteça.

Esse é um dos mecanismos dos quais ela dispõe. É chegada a hora da partida para a verdadeira vida. A família e amigos não querem perder a pessoa, mas ao Alto cabem todos os entendimentos que nós não possuímos.

A matéria é uma prisão para o Espírito, e retornar à Pátria Mãe, é uma libertação.

Sentir é inevitável, sofrer faz parte do processo. O luto é um caminho bastante individual, mas precisamos ter a consciência de aceitar a VOSSA vontade!

Ame, viva, demonstre seu amor, acarinhe. Viva plenamente cada momento com aqueles que ama. A vida irá se findar em algum momento, e que nesse instante, vivamos os nossos sentimentos mas busquemos o equilíbrio que auxiliar nosso ente e que nos ajuda a serenar diante da dor.

A melhora da morte é real para que, momentaneamente, afrouxemos nossas dores e, assim, a vida complete seu ciclo. Ter fé é indispensável, amar é mais ainda, orar é mais do que necessário, mas que respiremos fundo e falemos de coração “seja feita a Vossa vontade”.

ELES VIVEM!

Rafaela Paes de Campos

Fonte: Blog Letra Espírita

REFERÊNCIA

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, Tradução de Matheus Rodrigues de Camargo – 23ª reimp. nov. 2018, Capivari/SP: Editora EME.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

CONVOCAÇÃO AOS ESPÍRITAS PELO DIÁLOGO!

Dora Incontri

Um dos propósitos que norteiam a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita é o diálogo inter-religioso, o diálogo com outras filosofias, sejam espiritualistas ou materialistas, sem perda da identidade de um espiritismo kardecista livre – conforme já expusemos num manifesto publicado aqui em fevereiro de 2019.

Esse diálogo requer uma arte de empatia, respeito e reconhecimento de valor no outro e ao mesmo tempo, a preservação de um espírito crítico (não demolidor) em relação a qualquer corrente de pensamento, incluindo a nossa. Perder a mão nesse caminho é algo muito fácil, quando nos afastamos da fraternidade e nos deixamos incendiar por paixões avassaladoras.

Mas tenho observado que o mais difícil é manter o diálogo entre nós mesmos – entre aqueles mesmos que se dizem espíritas kardecistas. E quero tecer algumas reflexões em torno desse delicado tema.

Desde o manifesto de 2019, entre os próprios que assinaram aquele manifesto, já houve brigas, cancelamentos, mágoas, raivas e toda espécie de negação de diálogo construtivo. Um dia desses, entrevistando o querido frade franciscano Volney Berkenbrock, em nosso programa Semeando Espiritualidades: Diálogo e Crítica, ele nos apresentava uma ideia interessante: é mais fácil dialogar com o outro mais distante, mais diferente de nós, do que com o que é nosso, está próximo, faz adesão à mesma corrente e pensa diferente. Dizia ele isso para explicar por que católicos progressistas, por exemplo, dialogam com tanta empatia com adeptos das religiões afro-brasileiras ou com budistas e taoístas, mas se esquivam de um encontro com espíritas kardecistas. Para o Frei, e concordei com ele, sendo o espiritismo uma releitura do cristianismo, ele é visto muito mais como uma heresia, do que como outra tradição, que deve ser respeitada.

Para mim, há outros fatores também, que não cabem aqui. Mas sim, na medida em que Kardec destrona Lúcifer, torna os diabos simples seres humanos desencarnados e em estado de sofrimento e endurecimento, considera Jesus não o próprio Deus encarnado, mas um Espírito que nos serve de modelo e guia, que confronta a eternidade das penas e propõe a reencarnação, ele está re-explicando o cristianismo, confrontando dogmas fundamentais, dentro da própria tradição greco-judaico-cristã – porque o espiritismo, sim, está dentro dessa tradição histórica. Compreende-se então o que falou o frei.

Em nosso caso, dos espíritas kardecistas, teríamos que rever posições intolerantes e extremadas, para mantermos um mínimo de fraternidade, colaboração e respeito à diversidade. Senão, tanto criticamos o movimento espírita institucional hegemônico, leia-se FEB e afins – com quem também, na medida do possível, devemos tentar um diálogo (não submisso e acrítico, mas humanamente amistoso), e acabamos por agir como os mais autoritários, impedindo a livre manifestação do pensamento de cada um.

Entendamos que sempre haverá diferenças entre os que mais pensam igual – e ótimo que assim seja, isso é enriquecedor e fecundo e jamais poderemos fugir de nossa subjetividade.

Quero citar aqui algumas diferenças aceitáveis e o que realmente não podemos aceitar como espíritas – seja de que tendência que nos consideremos.

Se há espíritas roustainguistas e kardecistas, podemos discutir à vontade as teses de Roustaing e criticá-las (se assim quisermos e acharmos importante, eu particularmente acho relevante, porque o roustainguismo teve um papel histórico importante no sincretismo do espiritismo com o catolicismo no Brasil). Mas nem por isso, não há coisas fundamentais que nos unam, como a reencarnação, a mediunidade e, sobretudo a Ética da fraternidade universal. Por isso, posso discutir até a morte o roustainguismo, mas quem aceita Roustaing não é meu adversário…

Há quem aceite que o espiritismo seja uma revisão, uma releitura, uma reafirmação do cristianismo e outros que falam de um espiritismo laico. Estou entre aqueles que afirmam o espiritismo como um resgate de um cristianismo que foi reprimido historicamente. Kardec bateu insistentemente na tecla de que o espiritismo não é religião, mas escreveu O Evangelho segundo o Espiritismo e usa o termo espírita-cristão. Ao mesmo tempo, no próprio Evangelho, anuncia que o espírita poderia pertencer a qualquer culto que quisesse. Então, há espaço para diferentes interpretações do próprio Kardec. Por que nos combatermos mutuamente, ao invés de debatermos civilizadamente? Recentemente, numa live com Jon Aizpurua, um queridíssimo amigo e liderança internacional do espiritismo laico (termo que nunca me convenceu), chegamos a um conceito que nos agradou mutuamente: de que o espiritismo é uma forma de espiritualidade livre. Como se vê, o diálogo encontra pontes. Dentro desse âmbito, quem quiser comemorar Natal e Páscoa ressignificando-os espiritamente, que comemore, quem não quiser, não comemore. Quem quiser orar a Maria (como podemos orar a qualquer Espírito elevado) que ore, quem não quiser nem orar, não ore! E que ninguém se incomode com essas questões de foro íntimo de cada um.

Nesses últimos anos, a maior ruptura que tivemos no movimento espírita, como de resto em toda a sociedade brasileira, é em relação aos bolsonaristas espíritas. Veja-se que aí não é mais uma questão doutrinária, de detalhes, de briga por palavras ou conceitos. Mas o bolsonarismo fere os princípios éticos básicos do espiritismo. E não só do espiritismo, mas do cristianismo, do budismo, das religiões afro… de uma ética laica, da própria civilização. É simplesmente a barbárie! E estamos testemunhando aonde nos levou essa barbárie: mais de 300 mil mortos por Covid-19 no Brasil. Na medida em que seu líder defende tortura, morte, anulamento do adversário, misoginia, negacionismo científico, homofobia, racismo, armamento da população, ele está completamente fora da moralidade básica de qualquer pessoa racional, saudável psiquicamente, seja espírita ou não. Compreende-se assim que devamos repudiar, criticar, lamentar espíritas que se alinham ao bolsonarismo – e infelizmente foram muitos. Mas não odiá-los, porque não vamos nos igualar a eles em nenhum discurso de ódio.

Por conta justamente desse retrocesso experimentado no Brasil, desde o golpe de 2016, e a decepção de muitos espíritas com dirigentes e médiuns bolsonaristas, surgiram inúmeros coletivos, lideranças novas, grupos, que vieram fazer coro a uma visão que a ABPE já cultivava desde o seu início em 2004 – aliás, já antes com a Editora Comenius: uma visão progressista, social e à esquerda do espiritismo, como, pensamos, ele realmente é. Só para lembrar, o último Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita e Internacional de Educação e Espiritualidade, tivemos o tema: Educação, Espiritualidade e Transformação Social. Mas… assim como as esquerdas brigam, se fendem, se combatem, também essa atitude de intolerância e cancelamento já atingiu as fileiras dos espíritas progressistas. Muitos acham que para ser progressista e de esquerda, devemos seguir as cartilhas que cada grupo ou indivíduo seguem. Primeiramente, esses movimentos não poderiam nunca se partidarizar, porque quando discutimos política e sociedade no movimento espírita, devem ser debates teóricos, ações práticas de atuação social, mas jamais a propaganda de um partido ou de uma liderança, embora individualmente, cada qual tenha o direito de ter suas preferências. Dentro de um diálogo da esquerda espírita, cabem sociais-democratas, socialistas, marxistas, anarquistas, partidários da cultura da paz, partidários de pautas identitárias e aqueles que não consideram essas pautas prioritárias no momento… enfim, há espaço para todos, todas e todes (como querem alguns – para mim, me dói ferir a língua, embora é claro, repudio muito mais ferir os corpos). Tudo isso seria possível, se houvesse menos paixão, menos arrebatamento e menos desejo de sermos sempre os únicos donos da verdade.

O desafio, portanto – e isso se estenderia a vários outros temas, como Chico Xavier, Emmanuel, Pietro Ubaldi e ao próprio Kardec, nossa grande referência – é manter o espírito crítico, atualizado, mas equilibrado, preciso, sóbrio, sem arrebatamentos destruidores, sem cancelar quem pensa diferente e colhendo o que é bom no meio de equívocos. Assim agia Kardec, que nunca perdia a classe, tinha um fino espírito de ironia crítica, mas jamais usou as armas do ódio e da destruição do outro. Fraternidade, empatia, diálogo construtivo, argumentativo – essas devem ser as posturas de um espírita.

Dora Incontri

Fonte:  Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE)

Publicado em por admin | Deixe um comentário

REPOUSO TAMBÉM

Joanna de Ângelis

As muitas tarefas a que atendes exaurem tuas forças e o cansaço anula possibilidades valiosas, que poderias aplicar em realizações de maior profundidade.

Fascinado pelos serviços de variada ordem nos quais buscas esquecer problemas de outro quilate, ao te dares conta, estás vencido, sem o controle que se faz preciso, para maior avanço nas vias da evolução.

Examina os compromissos que te assoberbam e seleciona-os.

Põe em ordem o que deves executar para que o tempo te seja pródigo.

Disciplina as realizações para que se submetam ao teu comando otimista.

Trabalho que enfada é labor que deprime.

Há trabalhos que podes e deves fazer e há deveres que outros podem executar, na tua esfera de ação.

Os serviços de superfície absorvem e desesperam, porquanto se multiplicam sem cessar.

Fugir do que necessitas vencer, significa transferência de luta para tempo e espaço posterior.

Se buscas o cansaço para asfixiar a ansiedade que te persegue, raciocinas como o opiômano, que se entrega a um tormento para a outro tormento fugir.

A Doutrina Espírita, iluminando a mente do homem, dá-lhe os instrumentos de fácil manejo para dissecar os dramas que perturbam, libertando dos falsos problemas resultantes da indisciplina do próprio espírito.

Em face da necessidade de um exame acurado da dificuldade que se faz empecilho à evolução, o aluno do Cristo deve atirar-se ao trabalho, sem dúvida, mas, primeiramente precisa capacitar-se com os valores que o habilitem para a paz legítima, a fim de adquirir alegria nas realizações, desintoxicando-se dos vapores da estafa que irrita, entorpece e dispõe mal.

* * *

Usa a “hora morta” meditando.

Cultiva a leitura espírita como norma de aprendizagem.

Conhecendo a Doutrina, perceberás as sutilezas de que se utilizam nossos adversários, já desencarnados, e assim mais facilmente poderás enfrentá-los.

O autoconhecimento, como a auto-iluminação, constitui tesouros que devem ser trabalhados.

Ler ou estudar são hábitos.

O espírita não pode prescindir do estudo.

Estudo também é trabalho…

Não somente merecimento pelo esforço físico, mas também evolução pela renovação íntima ante a luz do conhecimento.

Não menosprezes, desse modo, nos teus labores, o significado da palavra refazimento.

Refazer as forças no repouso representa desdobrar possibilidade de ação contínua.

Nem o sono entorpecente, nem a ação devastadora.

Repouso pode ser entendido como troca de atividades, que funciona como higiene mental, em que encontres prazer sem tédio, alegria sem irritabilidade.

As atividades espíritas para o teu espírito são de alto teor… Dá-lhes prioridade.

Que se dirá de quem, tendo feito muito, nada fez pela serenidade de si mesmo?

Não vale semear uma gleba sem-fim, entregando-a aos parasitos, aos insetos e às ervas daninhas.

Planta e zela.

Levanta o caído e anda um pouco com ele.

Ajuda o necessitado e anima-o um tanto mais.

Os que são levantados e não dispõem de forças para manter-se, quando lhes falta o auxílio, retornam ao chão…

Trabalho e recuperação podem ser considerados termos do mesmo binômio evolutivo.

Amanhã farás o que hoje não conseguires.

* * *

Muitas vezes surgem interrogações a respeito dos desaparecimentos do Mestre, nas narrativas evangélicas.

Conjecturas de vária procedência tomam corpo, tentando elucidações.

No entanto, após os labores exaustivos junto ao povo, habitualmente o Senhor buscava orar em profundo silêncio, meditar em demorados solilóquios.

Retemperava, assim, as próprias energias para a áspera liça de esclarecer e consolar, atuando junto aos corações desarvorados e mentes em desalinho; pacificador e harmônico, distribuindo serenidade e equilíbrio como fonte inesgotável, cujas nascentes refrescantes tinham origem nos Céus.

Joanna de Ângelis

Médium: Divaldo P. Franco

Livro: Dimensões da Verdade – 49

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Continuidade da vida

vida Maria José

Por algum motivo que ele desconhecia, naquela manhã, ele acordou bem mais disposto, como há muito tempo não se sentia. Calçou os chinelos, saiu pela porta aberta do quarto e viu a enfermeira Fernanda no posto de enfermagem, em frente a um computador, digitando. Passou por ela e deu um sonoro bom dia, mas ela estava tão concentrada que nem respondeu.

O doutor Rodrigo, médico que supervisionava seu tratamento vinha pelo largo corredor conversando com outro médico, tão compenetrado, que nem se virou para cumprimentá-lo. Ele preferiu não chamar o médico pelo nome, como sempre fazia, pra não atrapalhar a conversa, pois andavam pelo corredor verificando uns exames com cara de muito preocupados.

A manhã estava com céu aberto e o dia prometia. Ele, de longe, tinha acordado muito melhor. Nada de enjoo ou vômitos, diarreia ou fadiga. Na verdade, ele estava tão bem que queria sair correndo e pulando pelos corredores do hospital. Melhor não, pensou.

Naquela manhã parecia que ninguém o via. Aos 19 anos ele já tinha se acostumado aos olhares de admiração das pessoas. Alto, forte, bonito e extremamente simpático, ele não tinha dificuldade em se comunicar e cativar as pessoas. Mesmo estando bem mais magro, careca e pálido, ele chamava a atenção ao passar pelos corredores do hospital quando dava suas “caminhadas” para relaxar a tensão e diminuir a angústia que esmagava seu peito.

O tratamento de quimioterapia daquela semana o deixou bem debilitado, tanto que teve que ser internado. Ele tinha que fazer muita força para manter o humor e se fazer de forte, principalmente perto dos pais e da irmã mais nova. Já estava bem desgastado pelo tratamento, cansado de lutar para viver.

Tudo aconteceu muito rapidamente. Começou com dores fortes na cabeça há alguns meses e então, do nada, um diagnóstico terrível: câncer no cérebro. No início parecia um lance surreal, que estava acontecendo com outra pessoa, nada a ver com a vida que se abria todinha diante dele, só esperando para ele realizar seus sonhos.

Só que não. Pânico na família, perguntas para as quais as respostas demoravam ou não tinham muitas certezas, sigilo na escola, saída das aulas, afastamento dos colegas e toda a reviravolta que sua vida sofreu. Literalmente, ele estava perdido.

E aí as perguntas começaram a aparecer. Devagarinho. Uma a uma foram se esgueirando entre um exame e outro, entre um diagnostico ruim e outro pior. À medida que a porta da esperança ia se fechando mais elas apareciam. E ele sem coragem pra verbalizar nenhuma : O que vai acontecer comigo? Vou deixar de existir? Se não, pra onde vou? O que vou ser? Alma penada? Mas o que é uma alma penada? Será que sou bom o suficiente para ir para o céu? Tem céu mesmo? Se não tem, o que me espera?

Tinha dias que a barra ficava mais leve e ele até se esquecia delas. Elas davam uma sumida e ele ficava sempre grato. Mas toda vez que era internado e saia para caminhar no corredor elas logo apareciam… Ultimamente com mais frequência.

Caminhou até a área do grande jardim interno, onde muitas vezes se sentara com seus familiares e amigos no horário de visitas. Era o lugar preferido dos pacientes. Ali eles meio que esqueciam um pouco das doenças que marcavam suas vidas. Resgatavam momentos de alegria.

Naquela hora não havia ninguém lá e ele achou isso muito bom. Ia ficar mais à vontade. Sentou-se no banco, virou a cara pra cima, sentiu o sol queimando a pele de forma gostosa e respirou profundamente.

Era tão bom estar vivo! Por que ele não podia ter uma chance? Por que tinha que morrer daquela doença horrorosa? Por que deixar seus pais, sua irmã e todos que ele amava? Ele era tão novo!  Gente nova não devia morrer! Não está certo isso.

Ao ter esses pensamentos ele começou a se sentir mal. Os sintomas começaram a reaparecer e ele teve uma leve tontura. Olhou em volta e viu que uma jovem enfermeira caminhava diretamente para ele. Devia ser nova, pois ele nunca a tinha visto por ali.

Com um suave sorriso ela falou:

_Bom dia, João!

_Bom dia!

-Posso me sentar com você?

_Claro!

_Meu nome é Ermance. Tudo bem?

_Estava, né. Até agora a pouco, quando comecei a passar mal outra vez.

_É. Deu para notar a sua mudança vibratória. Por isso eu vim. Sou a instrutora responsável pelo seu caso.

_Só achei que você iria querer curtir a beleza revigorante do jardim por mais um tempo, mas parece que eu me enganei.

_Mudança vibratória? O que você quer dizer?

_Você chegou até aqui se sentindo muito bem, não foi? Praticamente sem os sintomas que te acompanharam nos últimos tempos. – Mas ao começar a se questionar sobre as “perdas” que estava sofrendo, seu padrão mental baixou e você começou a passar mal outra vez.

_Por que você fez aspas com os dedos quando falou das “perdas”? Por acaso elas não são reais e evidentes?

_Isso depende do ponto de vista de quem vê os acontecimentos.

_E morrer de um câncer violento aos 19 anos, tendo uma vida toda pela frente, não é uma perda inquestionável, independente do ponto de vista de quem quer que seja?

_Nem sempre!

_Como assim? Você deve estar despreparada para ser instrutora de alguém… Seja lá instrutora do que seja. Vejo que é tão jovem quanto eu.

_Sou uma veterana! Trabalho como Instrutora de Readaptação há mais de 20 anos.

_Mas você ainda nem tem cara de quem tem essa idade!

_Para você ver como as coisas por aqui são boas. Sempre que trabalho com jovens escolho essa aparência. Facilita meu trabalho.

_Seu trabalho?

_Sim, como disse sou Instrutora de Readaptação e ao perceber a queda do seu padrão mental achei melhor me aproximar.

_Queda de padrão mental? O que é isso? O que tem a ver comigo e minha doença?

_Calma! Uma pergunta de cada vez! Então vamos lá!

_Bom, ao ficar se perguntando os “por quês” da sua doença, da falta de tratamento e das suas perdas, sua mente passou a vibrar em uma faixa de pessimismo e revolta, atraindo para você todos os sintomas dos quais você já estava livre essa manhã. A mudança de pensamentos de um estado bom para um com sofrimento é o que chamamos de queda do padrão mental. Entendeu?

_Mais ou menos. O que você quer dizer é que se eu estou bem e tranquilo tenho um padrão mental melhor e, quando não estou, entro em um padrão pior. É isso!

_Aprende rápido, em?

_Mas o que isso tem a ver com a volta dos sintomas? E por que eu acordei me sentindo tão bem? E por que …

_Muita calma nessa hora! Respira! Isso.

_Antes de continuar nossa conversa preciso te apresentar O Desafio. Pode ser?

_E eu lá estou em condições de aceitar desafio? Olha meu estado. É ruim, em?

_Sei que seu espírito desportivo é alto. Não é à toa que você é o capitão do time de basquete da sua escola.

_Mas como você sabe disso?  Essa informação não está no meu relatório clínico daqui do hospital.

_Tenho um relatório minucioso a seu respeito, e não é só dessa atual. Mas falamos disso depois. Vamos ao que interessa. Quero ver você vencer O Maior Desafio dessa sua vida.

João olhou para aquela jovem e alegre enfermeira. Por alguma razão ele se sentia muito bem em sua companhia. Inexplicavelmente, sentia que podia confiar nela.

Será que era um tratamento novo para paciente terminais? Será que foi o doutor Rodrigo que solicitou aquela supervisão psicológica para que ele ficasse um pouco melhor? Seus pais certamente estariam de acordo, não é?

Como se lesse seus pensamentos Ermance falou:

_João, sossegue sua mente. Ela está tagarelando demais e tirando sua atenção do que é mais importante agora.

_E o que seria?

_Você vencer O Maior Desafio dessa sua vida.

_Ah! O Desafio. Muito bem. Parece que o tratamento aqui do hospital vai além do que eu poderia imaginar. Mas se você está aqui isso significa que tudo ocorre dentro do programado.

_E põe programado nisso!

_Então vamos ao Maior Desafio da minha vida.

_Me acompanhe.

João e Ermance se levantaram do banco, caminharam tranquilamente pelo extenso jardim e entraram de volta no corredor. Foram andando em silencio por algum tempo. Ao se aproximarem do setor no qual o quarto de João estava ele percebeu uma movimentação fora do comum no dia a dia. No corredor mais adiante, bem em frente à porta do seu quarto havia uma equipe médica conversando baixo e as enfermeiras do setor entravam e saiam em absoluto silêncio.

João olhou para Ermance sem entender o que estava acontecendo. Ela estava serena e fez um sinal para que ele entrasse no quarto.

A primeira coisa que ele viu foi uma pessoa deitada na cama que ele havia ocupado, coberta dos pés à cabeça com um lençol. Perguntou:

_Colocaram outro paciente no quarto que eu estava usando?

_Não – a resposta veio calma.

_Então quem é que está deitado ali na minha cama e coberto desse jeito?

_Ali está um recurso temporário que lhe foi permitido usar por determinado tempo e para um objetivo específico.

_O que você quer dizer com isso?

_Que ali está, digamos assim, uma vestimenta que você usou até hoje e da qual não precisa mais.

_Não estou entendendo nada.

_Vou te ajudar a entender. Sabe quando você cresce e a roupa não te serve mais? Você não cabe mais nela, certo? E aí você a dispensa de seu uso pessoal. Então, foi isso que aconteceu.

_Estamos falando de roupa?

_De certa forma, sim.

_Uma roupa que eu não vou usar mais porque cresci?

_Simbolicamente sim. Você está deixando uma veste física que te serviu até hoje pela manhã e agora não precisa mais dela.

_Veste física? O que é isso?

_Um corpo físico.

João olhou para Ermance de boca aberta.

Será que ele estava entendendo o que ela havia dito? Será que ela havia dito que ali estava deitado o seu corpo? Como assim? – ele se perguntou passando a mão pela cabeça, pelo tórax e barriga, sentindo a si mesmo.

O corpo dele estava ali com ele, de pé e não deitado na cama e coberto por um lençol. Lançou um olhar indagativo que logo foi respondido por Ermance:

_A vida continua, João. O que há depois da matéria é a plena continuidade dela. Só que em planos diferentes.  Bem-vindo a sua pátria de origem!

_Então eu morri? Mas como posso ter morrido se estou aqui falando com você, andando e sentindo meu corpo normalmente?

_Sim, você morreu hoje bem cedo, de forma tranquila, tanto que nem percebeu. Isso é maravilhoso. Você não faz ideia de como casos iguais ao seu são raros.

_Maravilhoso? Como o fato de eu ter morrido pode ser maravilhoso? Você já parou para pensar nas consequências? Na minha família e amigos? E em mim?

Assim que disse essas palavras, profundo mal-estar envolveu João. Parecia que ele estava em uma crise aguda a sua doença. Suando frio, com muitas dores na cabeça e uma sensação de fraqueza tão forte que ele teve a sensação de que ia desmaiar.

Ermance o pegou pelos ombros e o encaminhou para uma poltrona do quarto.

Em profundo silencio e concentração, espalmou as mãos sobre a testa e coração dele e transmitiu energias calmantes e revigorantes a fim de que ele ficasse bem. Com vontade firme e intenção de ajuda ela doou energias que foram, aos poucos, reequilibrando o campo mental e emocional de João.

Após alguns minutos desse aporte energético, João começou a sentir um pouco melhor, mas ainda distante de se sentir bem e lúcido o suficiente para entender o que estava acontecendo.

Ermance falou decidida:

_Agora é hora de só pensarmos em você. Deixe aos que ficam na vida física a oportunidade de viverem as experiencias de desapego que necessitam e de fortalecimento da fé que este momento lhes reserva.

_Mantenha a calma que é tudo o que você precisa para vencer o desafio de entender que a morte é simples continuidade da vida. Vida que precisa ser aceita nesse momento, uma vez que a que te aguarda aqui no plano astral

_Mas vamos deixar as explicações mais amplas para depois. Agora você precisa descansar.

Fonte: Blog Dufox

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Adulterações nas Obras Básicas

Aryanne   Karine

No dia 18 de abril de 1857, Allan Kardec lançou o Livro dos Espíritos, tornando esta data um marco histórico para os adeptos e simpatizantes da doutrina trazida pelos nossos irmãos espirituais que tanto esclarece e norteia nossos passos, tirando-nos dúvidas há tantos séculos viventes em nossas consciências e iniciando a compreensão doutrinária, religiosa e científica de questões antes sem razão nem lógica, baseadas apenas pela fé puramente cega. No dia 06 de janeiro de 1868, faltando pouco para fechar o ciclo de três anos, Kardec lança livro que posteriormente iria, até os dias atuais, ser considerado como a quinta obra básica da codificação espírita, o livro A Gênese. Essas cinco obras inicias, tratam de trazer à tona a fé raciocinada, aquela que, com o amparo da ciência, faz sentido e baseia-se na mesma, para comprovar suas lições, caminhando sempre de mãos dadas com a razão, onde Kardec inclusive, por muitas vezes, orientando-nos a reconhecer a doutrina espírita como uma vertente científica, pelo seu poder de observação e pesquisa, do que compete ao plano da espiritualidade, bem como o nosso plano material.

Isso porque, assim como muitos contrários a doutrina Espírita na época de sua codificação, Allan Kardec também era cético nos efeitos mediúnicos e vida após a morte, criando ele, uma metodologia científica própria para conseguir validar os ensinos dos espíritos, onde conforme foi trabalhando nas questões, recebeu do alto que assim como os bons espíritos, que trabalham para nós instruir e auxiliar, existem também os que ainda não possuem um nível de evolução tão honroso, e poderiam, assim como ainda podem, utilizar do médium ou material usado na comunicação mediúnica para atrapalhar o trabalho proposto.

É um fato irrevogável a qualidade e veracidade do trabalho árduo que Allan Kardec teve para presentear-nos com as lições da espiritualidade, criando-o, uma metodologia séria que nunca abriu, dentre as pesquisas espíritas, precedentes a dúvidas ou controvérsias. Porém, justamente o último livro da codificação espírita, a muitos anos está envolvido em uma polêmica no meio editorial, a de adulterações da obra original.

Essa constatação foi feita, quando o escritor espirita Carlos de Brito Imbassahy, por volta do início dos anos 2000, levantou a polemica do então recém-chegado a sua 5º edição, o livro ‘A Gênese’, onde ao consultar terceira edição do original francês, constatou entre algumas alterações, sendo a mais grave, a retirada de um item que fez parte da obra até a sua quarta edição, item este que mencionava o desaparecimento do corpo físico de Jesus. Na época, Carlos, chegou a concluir que as adulterações foram feitas pelo então tradutor da FEB Guilon Ribeiro, pois esta edição teria sido feita após o desencarne de Allan Kardec, gerando por muitos, a constatação de adulteração.

O historiador Felipe Gonçalves por volta de 2009, resolveu então, ir em busca da veracidade dos fatos e descobrir se realmente Guilon era o responsável pela adulteração depois de muitas especulações na época. Onde relata que:

Munido desse material e motivado pelo interesse em desvendar o assunto, reuni-me com o espírita João Donha, do Paraná, e iniciamos uma minuciosa pesquisa. A primeira coisa que fizemos foi comparar as quatro primeiras edições da obra, publicadas por Kardec em 1868, e constatamos que elas eram idênticas. Depois, passamos para a análise da 5ª edição, publicada em 1872 (após o desencarne de Allan Kardec), e apresentada pelos editores como revue, corrigée et augmentée (revista, corrigida e aumentada). Ao analisar a obra, constatamos o que os editores anunciaram: a 5ª edição aparecia com muitas diferenças em relação às edições anteriores. Isso isentava Guillon Ribeiro das acusações precipitadas de Carlos Imbassahy. Mas, e quanto às alterações? Quem as teria feito? Mergulhamos de cabeça no assunto, consultamos diversas fontes do período, mas, na ausência de provas materiais que nos permitissem chegar à autoria das alterações, não pudemos chegar à uma conclusão. ¹

O fato é que desde o princípio do levante dessas informações, há muita especulação não somente sobre o responsável por tais alterações posteriores ao desencarne de Kardec, bem como se não foi o próprio quem revisou e alterou alguns trechos de sua própria obra, o que é comum no lançamento de novas edições no ramo editorial, ainda mais se tratando de uma obra recente, onde se descobria e ainda se descobre muito do que a espiritualidade tem a nos oferecer.

Em seu livro Doutrina Espírita Sem Segredos, a autora Evelyn Freire nos traz referências envolventes desse tema, onde nos elucida com a seguinte reflexão:

“(…) A Gênese foi adulterada, inclusive com a exclusão de conceitos doutrinários firmados por Allan Kardec. Esses conceitos ficaram desconhecidos por 150 anos. Em vida, Kardec publicou quatro edições idênticas à primeira, no decurso do ano de 1868. Entretanto, desencarnou em março do ano seguinte e, em 1872, comandando a continuidade das obras de Allan Kardec, Pierre Gaetan Leymarie, dissidente inconformado com os conceitos fundamentais apresentados em A Gênese, acabou realizando exclusões ao texto original e publicando uma quinta edição revisada, corrigida e aumentada que não correspondia à original’²

É importante salientar que, talvez o problema maior não esteja em descobrir o autor das alterações, mas compreender o que levou a nova edição a mudar o seu conteúdo que até então permanecia fiel à primeira edição, sem nem ao menos expor uma nota no rodapé ou esclarecer o motivo das alterações pós desencarne do autor, o que, automaticamente, abriu precedentes á muitas especulações, pois não se trata de uma obra qualquer, e sim, conceitos doutrinários de uma obra que aborda a vertente científica da doutrina espírita, e é uma das bases de pesquisa e divulgação da mesma.

Como se somente essa polêmica em torno de uma obra tão significativa não fosse o suficiente, temos ainda a recente descoberta oriunda de uma grande pesquisa do escritor e também pesquisador Paulo Henrique de Figueiredo que após um trabalho minucioso com arquivos originais, constatou não só o que já havia sido exposto, mas também, a adulteração na penúltima obra da codificação espírita, o livro O Céu e o Inferno. Em uma entrevista, o escritor comenta:

‘Desde julho de 2019, vários grupos de pesquisa tiveram acesso aos documentos da Biblioteca Nacional da França e dos Arquivos Nacionais quanto às edições da obra O céu e o inferno. Na pesquisa efetuada pelo coautor de minha obra, Lucas Sampaio, nos grandes e empoeirados livros de mais de um século, nos Arquivos de Paris, ele encontrou o depósito legal n. 5.819, da quarta edição de O céu e o inferno, registrado em 19/7/1869, à página 117 do documento F/18(III)/124. Sendo após a morte de Rivail, trata-se de adulteração. Na França, como ocorreu com A Gênese, a União Francesa, responsável pela publicação da obra, já voltou à edição original de Kardec, assim como na Argentina. No Brasil, estamos preparando a edição em português. O mundo inteiro está restaurando a verdadeira voz de Kardec. São alterações seríssimas. O adulterador tinha em vista implantar as ideias de castigo divino, carma, sofrimento como pena divina, queda e outros dogmas, implantando textos jamais escritos por Kardec em O céu e o inferno. Também retiraram ideias fundamentais quanto à moral autônoma, responsabilidade moral, a liberdade como lei divina. Será um resgate trabalhoso, exigindo estudo e dedicação dos espíritas. Mas será a restauração da verdade’³

Nesta mesma entrevista, Figueiredo menciona que as outras três obras da codificação espírita estão em suas versões originais, portanto não possuem a mesma problemática quanto ao trabalho de Leymarie pós desencarne de Kardec. Importante mencionar também, que existe uma lei moral, quando após o óbito do escritor, não tendo ninguém o direito de alterar suas obras em seu nome.

O que talvez seja de imensa relevância para nossa reflexão é, quantos séculos a humanidade viveu controlada por uma fé cega, de um Deus castigador, onde os que detinham os grandes conhecimentos, acabavam limitando o acesso ou deturpando as mensagens conforme a comodidade de seus interesses. Assim de mesmo modo, podemos trazer uma fala ainda do escritor e pesquisador Figueiredo que nos elucida não só a refletir sobre essa possível intenção nas adulterações, bem como a descoberta de suas pesquisas de trechos retirados da obra de Kardec mesmo após seu retorno ao plano espiritual:

‘Foram muitos trechos significativos retirados de O céu e o inferno que demonstram as conclusões de Kardec quanto à doutrina moral espírita. Neles, ele explica que o Espiritismo supera os dogmas presentes em sistemas criados pelos homens, pelos conceitos baseados nas leis naturais deduzidas das milhares de comunicações dos Espíritos, em diversos estágios evolutivos. Isso faz da metafísica e da moral uma ciência, pelo método de pesquisa espírita. Ficamos privados desses ensinamentos em virtude da adulteração. Logo no segundo item das Leis da Justiça Divina, capítulo 8 da edição original (que se tornou o 7 na versão adulterada), Kardec havia escrito: “Sendo todos os Espíritos perfectíveis, em virtude da lei do progresso, trazem em si os elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade futura e os meios de adquirir uma e de evitar a outra trabalhando em seu próprio adiantamento”. Essa é a mais clara e profunda definição da autonomia moral espírita. Desse modo, a felicidade não é uma concessão ou graça divina, mas uma conquista do próprio ser. Também a infelicidade não é um castigo, mas uma condição criada quando o Espírito desenvolve uma imperfeição, e termina quando ele próprio a desfaz. As vicissitudes do mundo material não são jamais castigos, mas, sim, oportunidades para o desenvolvimento do Espírito. Este mundo, portanto, não é uma prisão, e sim uma escola de aplicação.’⁴

Mas qual a relevância dessas informações em nosso meio espírita? As obras básicas são os pilares centrais de toda a doutrina dos espíritos, nelas são embasadas todas as obras posteriores doutrinárias, romances, ou qualquer conteúdo produzido de acordo com as lições dos espíritos. Deturpar a mensagem dessas obras ou então remover itens que seriam de auxílio para nosso progresso, torna um pouco mais árdua nossa jornada.

Obviamente, temos que ter o discernimento de que não é porque a pessoa é espírita que é perfeita, bem como, os que possuíram, possuem e possuirão poderes e status em altos cargos no movimento espírita não estão ilesos a erros, apesar de, enquanto encarnados, termos a tendência de tornar maiores os que trabalham em prol da doutrina, somos todos irmãos e iguais, e assim como os que alguns que estão no meio podem ter o intelecto mais desenvolvido que a moral, muitos que não são detentores de cargos ou status, podem possuir uma moral mais evoluída que o intelecto, quando não os dois estando na escala evolutiva talvez até a frente dos que se dispõe a ‘grandes atividades’.

Nós ainda estamos sujeitos a erros, assim como outrora, ou os responsáveis por essas adulterações pós-desencarne de Kardec, não podemos julgar o nosso próximo, pois se estamos vivendo no mesmo orbe dos que aqui erraram, é porque também somos falhos e o que nos difere é somente a falta de nossos erros. Afinal, não seria então esse o maior mandamento? Amar o próximo como a si mesmo?

Que ao invés de findar nossa energia em procurar motivos ou culpados, que busquemos voltar ao foco principal que é a mensagem tão bem elaborada na codificação das obras básicas e tomar não só para ganho de conhecimento, mas para uma nova forma de pensar e agir, vivendo as lições e mensagens em nosso íntimo, transformando-nos em seres melhores a cada amanhecer, para que não sejamos apenas acumuladores de conhecimento, mas a doutrina viva a evangelizar e espalhar os frutos dessa boa nova através de nossos exemplos.

Aryanne   Karine

REFERÊNCIAS:

¹ Espiritualidade e sociedade, A polêmica da Gênese. Disponível em: {http://www.espiritualidades.com.br/Artigos/i_autores/INCONTRI_Dora_tit_Polemica_da_Genese-A.htm} Acesso 11/01/2021

² CARVALHO, Evelyn Freire de. Doutrina Espírita Sem Segredos – Série Conhecendo o Espiritismo, Editora Letra Espírita – Campos dos Goytacazes RJ; 2019 pág 83

³ Folha Espírita, Adulteração em o céu e o inferno de Kardec. Disponível em {https://www.folhaespirita.com.br/jornal/pesquisa-indica-adulteracao-em-o-ceu-e-o-inferno-de-kardec/} Acesso: 11/01/2021

⁴ Folha Espírita, Adulteração em o céu e o inferno de Kardec. Disponível em {https://www.folhaespirita.com.br/jornal/pesquisa-indica-adulteracao-em-o-ceu-e-o-inferno-de-kardec/} Acesso: 11/01/2021

Fonte: Blog Letra Espírita

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Você Tem Medo do Umbral?

Fernanda Oliveira

“O pensamento escolhe. A ação realiza. O homem conduz o barco da vida com os remos do desejo, e a vida conduz o homem ao porto que ele aspira chegar. Eis porque, segundo as Leis que nos regem, ‘a cada um será dado segundo as suas obras”. (XAVIER, 2004).

Segundo a definição do dicionário (UMBRAL, 2021), umbral é a soleira da porta, portal ou entrada. Segundo André Luiz (XAVIER, 2006) no livro “Nosso Lar”, é “estado ou lugar transitório por onde passam as pessoas que não souberam aproveitar a oportunidade de evolução em sua vida na Terra.”

Pode ser entendido como o local que os Espíritos ainda estão ligados às coisas materiais, muito endurecidos e teimosos. O umbral começa na crosta terrestre, é uma dolorosa região densa de sombras, erguida e cultivada pela mente humana, local de dor e sofrimento. No umbral, os Espíritos continuam geralmente apegados às formas do mundo material, local onde não existe a noção de justiça, solidariedade, convivência, fraternidade, beleza, harmonia e equilíbrio; muitas vezes o Espírito desencarna e passa anos ignorando sua condição de desencarnado. Nessa região, habitualmente, as paixões reinam soberanas, a vida moral é quase nula e os seres são fisicamente e moralmente inferiores.

A Justiça Divina se faz pelo tribunal da consciência, dotado de livre arbítrio, ou seja, da liberdade de escolha, é o Espírito o construtor de seu destino. Somos julgados por nosso próprio julgamento. Nossos sofrimentos são resultados de nossas condutas errôneas e indevidas no mundo terreno: “a cada um segundo as suas obras.”

Tudo na criação está conectado, todos os Espíritos possuem livre arbítrio. Nossos pensamentos formam um campo vibratório ao nosso redor, todo Espírito é um núcleo radiante de forças que criam e são capazes de transformar, destruir e modificar.

Nada se perde na criação, Deus não pune ou castiga seus filhos, vivemos experiências para o nosso crescimento. Colhemos na vida espiritual nossas prioridades na vida terrena. Há diferentes divisões no mundo espiritual, de acordo com o estado espiritual, intelectual e moral que o Espírito se encontra.

“O teu trabalho é a oficina em que podes forjar a tua própria luz”. (XAVIER e BACELLI, 1986).

O Universo é a casa de Deus, e ele sabiamente povoou de seres vivos todos os mundos. Os Espíritos passam por inúmeras existências em diferentes mundos conforme o seu grau evolutivo. O Espírito vive onde situa seus pensamentos e suas ações. De tempos em tempos, a humanidade atinge um momento de depuração, que é precedido de um expurgo planetário, os Espíritos que não conseguirem modificar a sua moral e intelecto serão relegados a mundos inferiores. O ser humano deixa os mundos inferiores por mundos mais felizes conforme vai se curando de suas enfermidades morais. É uma recompensa passar de um mundo inferior para um mundo de ordem mais elevada, como é uma consequência das escolhas prolongarem sua permanência em um mundo infeliz ou ser relegado a mundos inferiores onde viverá provas mais duras.

Não existem castigos, punições ou injustiça, temos que ter consciência que somos o que escolhemos ser. Tudo principia na própria pessoa. O que há é a reação a uma causa anterior, os Espíritos se agrupam por afinidade vibratória de acordo com o seu grau evolutivo. Cada Espírito, quando separado do seu corpo material, vai para o meio que para si próprio preparou; juntando aos que lhe assemelham, ficam na região que estão acostumados e se acham a vontade; sua futura morada está na sintonia das suas escolhas, conforme a lei da afinidade representada na expressão: “semelhante atrai semelhante”.

O objetivo maior da reencarnação é a capacidade que o ser possui de discernir e de fazer escolhas válidas para o seu próprio progresso. Kardec (2000) nos diz que só a reparação do que fizemos anula a sua causa, quando praticamos atitudes boas, generosas e caridosas caminhamos no sentido de nosso aperfeiçoamento. Aquele que se elevar de maneira a aprender toda uma série de existências, verá que a cada um é atribuída a parte que lhe compete. Toda e qualquer situação que enfrentamos é opção inteiramente nossa, fruto de nossas escolhas. Ninguém define nossos passos, a não ser nós mesmos.

O tempo de cada criatura despertar é único e será o tempo certo; quando o ser estiver pronto para compreender e conhecer, terá o discernimento para realizar tarefas benéficas para o seu crescimento e desenvolvimento.

A morte não dá início a uma nova realidade que nada tem a ver com o que vivemos na Terra, quando a morte do corpo nada mais faz do que dar continuidade à vida, que é sempre a mesma; não existe divisão de vida no corpo e de vida após a morte. Recolhemos da vida, que é sempre única, a semeadura realizada livremente no plano material. A vida não acaba, como muitos pensam, e vamos colher o resultado dessa semeadura.

Quando estamos na Terra, vivemos uma constante escolha entre o bem e o mal. Ao retornarmos para o lado espiritual da existência, iniciamos a colheita do que semeamos. A prioridade do Espírito é a conquista dos valores morais da existência, a evolução necessita desse vai e vem no corpo físico. A vida espiritual é igual à nossa vida terrena: estudo, trabalho, convivências, desafios, relações e conexão com nossos pensamentos e atos, fazendo com que as nossas ligações sejam com nossos semelhantes, com os espíritos que vibram na mesma sintonia. Conforme esclarecimento oportuno de O Evangelho segundo o Espiritismo (KARDEC, 2000): “No espaço, os Espíritos formam grupos unidos pela afeição, simpatia e pela semelhança das inclinações, buscando trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de estar unidos pelos pensamentos. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, deram mais um passo no caminho da perfeição. Somente as afeições espirituais são duráveis; as de natureza carnal se extinguem com a causa que lhes deu origem. Quando às pessoas que se unem exclusivamente por motivo de interesse, essas realmente nada são umas para as outras: a morte as separa na Terra e no céu.”

A lei natural é a lei de Deus e é a única verdadeira para a felicidade e evolução do ser humano. A lei divina é neutra e lhe devolve o que você dá. A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um. Somos donos da nossa mente e temos o livre arbítrio para fazer e manter conversas saudáveis, leituras edificantes, ter cuidado e atenção com o que falamos, escolher com consciência os programas de televisão aos quais daremos atenção, as músicas que escutamos, os locais que frequentamos, a maneira que nos comportamos, a forma como procuramos tratar os nossos semelhantes, vigiar os nossos pensamentos e atitudes. Somos responsáveis pelo nosso padrão mental.

Nas mudanças terrestres a sociedade atual está testando novos modelos e meios de se alcançar a felicidade, liberdade, harmonia, igualdade e amor – questões de respeito e de segurança mental, física e emocional. Conforme nos elucida “A Gênese” (KARDEC, 2020): “O Espiritismo, avançando com o progresso, jamais será ultrapassado, porque, se as novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro acerca de um ponto, ele se modificara nesse ponto; se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”

A existência é um chamado à ação, seja essa de responsabilidade, solidariedade, cuidado, renovação ou transformação do caráter.

“Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele”. (KING, 2021).

As leis divinas se cumprem e o livre arbítrio nos convida a subir degraus no uso da nossa capacidade intelectual. Estudar, pesquisar, questionar e reaprender continua sendo o caminho mais seguro e necessário quando temos vontade de caminhar na verdade e na luz.

Vamos caminhando com muitas energias positivas, com bom senso e equilíbrio e os pensamentos sempre elevados.

“Reconhece-se o verdadeiro Espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”. (KARDEC, 2000).

Fernanda Oliveira

REFERÊNCIAS:

KARDEC, Allan. A Gênese. 1ª ed. Capivari: Editora EME, 2020.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1ª ed. Capivari: Editora EME, 2000.

KING, Martin Luther. Pensador, 2021. Disponível em: < https://www.pensador.com/busca.php?q=Quem+aceita+o+mal+sem+protestar>. Acesso em: 14 mar. 2021.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso lar. Pelo Espírito André Luiz. 56. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

BACCELLI, Carlos A. Crer e Agir. Pelos Espíritos Emmanuel e Irmão José. 2. ed. São Paulo: Editora Ideal, 1986.

UMBRAL. In: DICIO, Dicionário Online de Português. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/umbral/>. Acesso em: 14 mar. 2021.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

MATÉRIA MENTAL E NÍVEL EVOLUTIVO

Dr. Ricardo Di Bernardi

Nosso Universo é um todo de forças dinâmicas. André Luiz, na obra Mecanismos da Mediunidade (1), lembra-nos que o elétron é a expressão basilar de toda oscilação e de todo fluxo de energia que ocorre na dimensão física, isto é, em nosso universo material, o que inclui matéria de outras dimensões.

É, também, conhecimento dos estudiosos da fenomenologia espírita que a base fornecedora de toda matéria, e energia, existentes no Cosmo é o fluido universal, este seria o veículo para a expressão onipresente do “pensamento do criador” (2).

No macro e no microcosmo sempre ocorreram as manifestações do Amor Universal, que atua através das inteligências espirituais ou “Potências Angélicas”, mobilizadas para a organização de formas e de funções com variabilidade infinita.

Neste oceano de energia cósmica, navega a matéria mental humana, capaz de gerar formas-pensamento dotadas de fluido vital. Essas ideoplastias tem duração variável, conforme a persistência da onda mental que nós produzimos. Somos, por isto, cocriadores em plano menor.

A eletricidade e o magnetismo, derivações do fluido cósmico (universal), são constantemente modificadas e direcionadas pela matéria mental humana, ou seja, pelo nosso pensamento. O fluxo energético provindo do campo psíquico de cada Espírito encarnado ou desencarnado é muito individual, específico, mas, Dr. André Luiz ensina-nos que raios ultracurtos se projetam dos seres angélicos que são sábios, plenos de amor e inteligência, atuantes no micro e macrocosmo como representantes do Amor Universal –Deus, esses seres sábios geram condições adequadas para a expansão e sustentação da vida nas infinitas variações da natureza deste planeta, bem como nos demais astros do universo.

Nós, humanos terráqueos, emitimos matéria mental variável. Os corpúsculos mentais, que irradiamos, vibram em ondas curtas nos momentos de reflexão quando unimos sentimentos profundos e inteligência. Emanamos, outrossim, ondas médias nas aquisições de experiências e de conhecimentos, e, mais comumente, ondas longas, quando nos dedicamos às necessidades básicas de sustentação e manutenção da nossa existência física.

O homo sapiens, tanto aqui como no plano espiritual, esclarece-nos o eminente médico do plano extrafísico, expressa seu pensamento como onda, que, embora sutil, ainda é matéria. A onda do pensamento, emitida por nós, projeta-se em minúsculos corpúsculos mentais, terminologia utilizada por André Luiz.

Quanto aos animais, por serem princípios espirituais com menor tempo percorrido na longa estrada da evolução infinita, pensam fragmentariamente, normalmente seus pensamentos são descontínuos, daí suas ondas mentais serem fragmentárias, pensam em laivos ou fagulhas, são almas simples, mas “não são simples máquinas como supondes” (3).

As partículas mentais, projetadas por cada Espírito, tem a qualidade da indução mental sobre o campo psíquico de outras criaturas que sintonizem com o mesmo tipo de pensamento ou se coloquem submissas em termos de receptividade, por exemplo, animais ou seres simples e ignorantes. A intensidade da indução mental dependerá da intensidade da concentração, da persistência do pensamento e da clareza no rumo dos objetivos.

Somos seres que já amealhamos grande acervo de experiências, foram inúmeros acertos e equívocos que registramos, em nosso inconsciente, como estímulos ao progresso. Hoje, se somos amparados pelas correntes mentais dos iluminados, embora captemos muito pouco de suas induções mentais, também somos cocriadores de formas-pensamento e indutores mentais sobre seres menos desenvolvidos, não só os fisicamente próximos, mas todos os seres da Natureza com quem devemos intercambiar amor e respeito, pois, como nos diz Emmanuel, o que nos diferencia deles é apenas a maior ou menor distância do caminho percorrido.

 

Dr. Ricardo Di Bernardi*

*Médico, escritor e conferencista espírita, rhdb11@gmail.com

*Escritor com 5 livros pela Intelítera

Fonte:  Medicina e Espiritualidade

 

Referências:

  1. Xavier, Francisco C. Mecanismos da Mediunidade Pelo Espírito André Luiz. 7ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
  2. Mecanismos da Mediunidade, cap. 4, Matéria Mental.
  3. Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. [1857] Questão 595
Publicado em por admin | Deixe um comentário