O Grande Milagre da Família

Maurício de Araújo Zomignani

– Na terra, somos todos pais, mães e filhos adotivos. Não segundo a carne, mas pelo espírito. Identidade de natureza mesmo só com Deus, todos os demais laços de parentesco são papéis que o Pai nos concede para experimentarmos a co-criação, ainda que na metáfora da matéria, para servir de estágio, de projeto piloto, preparatório para o grande plano de amor que o Criador possui para cada uma de suas criaturas.

Filhos mesmo, somos só de Deus e, mesmo assim, apenas em potencial. Essa nossa única autêntica filiação só se realiza a partir da aproximação íntima e sincera com o Pai, com o outro, consigo mesmo a começar por um compromisso. Com promessa, com boa vontade começa o processo de realização de potenciais que nos fará a todos super-heróis, com superpoderes, Salvadores profundos, a começar por nós mesmos.

É por isso que, desde antes de nascer, tornamo-nos todos comprometidos com um processo de vivência comum, prometidos uns para os outros. Não importa muito o tamanho, a idade e a função com a qual venhamos no grupo familiar, o maior vem sempre com a missão de cuidar do menor. Enquanto a menoridade se manifesta na infeliz vivência desse pêndulo de atração e repulsão, apego e ódio, através das vidas sucessivas, a maioridade se expressa precisamente no serviço que nos fará, do instinto ao afeto, esgotarmos a egolatria e ensaiarmos o respeito, a empatia, a alteridade.

De início o homem, recém saído ainda da animalidade só é capaz de tratar o outro como o outro o trata, e a vida saberá utilizar para o crescimento essa terrível limitação que, utilizada para a violência, o escraviza nos círculos de vinganças mútuas. Atendendo à enorme força do instinto de preservação, vítimas e algozes, colocados em família, serão induzidos a uma troca de serviços, um mútuo condicionamento para a proteção. É assim que a família se torna uma fantástica usina de reciclagem do lixo mental e espiritual que vamos, com nossos muitos equívocos, e nosso imenso orgulho, acumulando em nossas almas durante as várias vidas.

É na família, então, que se opera o grande milagre. Aqueles mesmos que antes se condicionavam mutuamente à animalidade pelo egoísmo, irão agora, por meio do serviço, libertar-se mutuamente para o cuidado numa onda poderosíssima. Em André Luiz, mas também nos diversos outros livros que abordam resgates de seres trevosos muito endurecidos, é a mãe que é convocada para o momento mais delicado quando, já extenuado no mal, o ódio é defrontado com o amor e o monstro terrível reduz-se à condição de simples bebê e se aconchega no colo materno.

Fala nosso grande repórter com conhecimento. Como relatou em Nosso Lar, sua própria mãe, muito mais elevada que ele, internou-se por longos oito anos no charco em que André Luiz chafurdou após a morte, até que seu filho, mobilizando enfim a boa vontade em forma de oração, foi capaz de ver a mão de luz, no caso a mãe de luz, que há tanto tempo se lhe oferecia.

Maurício de Araújo Zomignani

E-mail: mauzomi@ig.com.br

 

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