O Comércio na Doutrina

A COMERCIALIZAÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA

Quando iniciei meus estudos da filosofia espírita em 2006 fui instruído por um grupo de praticantes que primava pela legitimidade e pela transparência nas relações com a doutrina, principalmente no que dizia respeito às questões financeiras. Agora, menos de dez anos depois deparo-me o tempo todo com divulgações de eventos em várias localidades, percebendo com isso que houve um grande crescimento e valorização do conteúdo espírita.

A meu ver, todo crescimento que acontece de forma rápida traz consigo problemas de organização e critério, pois o número de expositores cresceu em igual proporção sem qualquer demanda por experiência ou qualidade.

Incluo o início da minha trajetória nessa questão, pois abordei temas que estavam além do meu círculo profissional e hoje vejo leigos fazendo palestras sobre depressão, ansiedade, mecânica quântica, neurologia, pedagogia e vários outros temas tomando como base apenas uma ou duas leituras, ou até mesmo uma única experiência pessoal, como se isso fosse o suficiente para compreender as nuances que envolvem tais processos.

Somado a isso, vejo inúmeros cartazes divulgando eventos espíritas associados a taxas irreais para inscrição chamadas de investimento.

Ora, já dei palestras em vários estados e sei quanto custa levar um expositor até outra cidade e posso dizer com clareza que muitos desses eventos cobram acima do valor necessário, deixando claro com isso que buscam lucrar com a situação. A prerrogativa dos dirigentes é a de que o lucro será revertido para trazer outros expositores o que a meu ver é um erro e um comportamento antidoutrinário.

O dinheiro da casa espírita deve ser conseguido através de almoços, jantares, venda de comidas, artesanatos e etc e não pela cobrança do conteúdo a ser apresentado.Nós expositores não ganhamos nenhuma quantia pelo material que oferecemos voluntariamente e penso não ser correta a cobrança de valores que ferem a livre divulgação da doutrina.

Cobrar R$10 ou R$15 pelo coffee-break e para ajudar nos custos da viagem e hospedagem do expositor é uma coisa, agora cobrar R$40, R$50 ou até R$2.000 para um evento desse porte a meu ver elitiza e comercializa um conhecimento que deveria ser livre. Se pensarmos em uma família de quatro pessoas, os valores ficam inacessíveis não apenas para os pobres, mas até mesmo para a classe média. É necessário sempre deixar em aberto uma cota de vagas gratuitas e para a participação nesses eventos, pois todos têm o direito de aprender sobre Cristo e sobre a doutrina.

Também sou escritor e sei que cobrar R$35,00 por um livro mediúnico com uma tiragem de 40.000 cópias gera um lucro de quase R$30 por livro. Mesmo que a renda seja revertida para a caridade, isso não justifica taxar o conhecimento. A doutrina não possui dono, não pode ser comercializada e qualquer racionalização nesse sentido não diminui a falta dos que a exploram comercialmente.

O espiritismo prega que fora da caridade não há salvação e seu principal modelo que é Cristo pede que venhamos a dar de graça o que de graça recebemos, portanto, não compreendo a monetização que tem sido envolvida nesses processos.

Palestras que custam dinheiro, palestras que foram oferecidas de graça convertidas em DVD’s que custam dinheiro, sites com assinaturas mensais obrigatórias para a participação em estudos, etc.

Quando um valor que visa um grande lucro é cobrado sob a premissa de auxiliar em trabalhos assistenciais, a doação torna-se obrigatória. Eu posso gastar R$10 em um livro e doar outros R$20 para um trabalho que esteja localizado em minha própria cidade, mas pelo modelo atual, sou obrigado a doar para a instituição com a qual o escritor está vinculado, o que privilegia alguns trabalhos e sufoca outros.

Kardec fez um imenso trabalho na codificação da doutrina e cobrar pelas explicações dela vai contra tudo o que ela ensina. Existe o livre arbítrio, mas é necessário que saibamos separar o que é espírita e o que é comércio para que não sejamos expulsos do movimento assim como foram os cambistas do Templo de Jerusalém.

“E tendo feito um azorrague de cordas, expulsou a todos do templo, as ovelhas bem como os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio.” (João 12:15-16)

Vitor Antenore Rossi

(Rede Amigo Espírita)

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