Deus está no controle

– Carlos Alberto Iglesia Bernardo – 

Na pressa da vida moderna nos habituamos a receber informações de todos os lados – da mídia impressa, da televisão, dos departamentos de marketing nas empresas – sem muito tempo para análise e aos poucos acabamos formando uma imagem do mundo superficial e enganadora. Imagem que muitas vezes inclui sobre nosso animo e comportamento.

Nesta imagem distorcida vemos um mundo onde o homem não tem opções, senão competir e consumir, um homem reduzido a materialidade de um agente econômico sujeito a leis econômicas sem maiores compromissos sociais. Vemos a violência como conseqüência direta de uma sociedade onde o dinheiro é a medida de todos os valores e sua posse justifica quaisquer meios. Justiça, moral, bondade, honra, tudo enfim – parecem termos relativos e superados.

O bem estar parece reduzido a renda per capita e a felicidade ao saldo bancário.

O amor ao próximo, bem, depende da conjuntura, pois se ele gerar prejuízo a opção escolhida será cortá-lo. Não espanta que administradores se apropriem das verbas públicas; que o empresário demita para ter maior rentabilidade; que o empregado seja desonesto; que existam assassinos e traficantes; são conseqüências diretas do materialismo resultante dessa visão de mundo.

A própria globalização parece reduzida ao seu aspecto mais mesquinho, ao fluxo de capitais e serviços dos países de menor rentabilidade para os de maior.

Mas essa visão não resiste a uma análise mais profunda, revendo a história moderna, com as ferramentas que a Filosofia Espírita proporciona, vemos um mundo em transformação. Verdadeiros cataclismas morais – cujos pontos culminantes foram as grandes guerras mundiais – marcaram o século XX e criaram uma nova consciência. O cidadão que entrará no século XXI seria irreconhecível para o que saiu do XIX.

O choque de visões de mundo, aliado ao progresso tecnológico, libertou o homem de estruturas mentais seculares e permitiu uma liberdade de pensamento e um intercâmbio de idéias jamais visto antes. Como na adolescência, em que o ser humano enfrenta os conflitos da transformação de criança em adulto, nossa humanidade está na etapa em que ensaia suas novas liberdades e precisa optar pelo que quer ser. O mundo de expiação e o mundo de regeneração se misturam – um morrendo e outro surgindo.

O que morre predomina na mídia, o que nasce ainda toma forma nos corações humanos – se antevê nas ações que não chamam a atenção, mas que nem por isso são de menor importância.

Dentro do movimento espírita, por exemplo, se proliferam as notícias de brigas e de desvios, muito mais importante é a difusão cada vez maior do livro espírita (na bienal do livro deste ano a presença do livro espírita foi impressionante, não só nos estandes espíritas, mas nos de todas as livrarias de importância) e o empenho sempre renovado de seus discípulos. Qualquer visita a um encontro espírita mostrará que o movimento continua sendo dinâmico e se estendendo aos mais diversos campos da atividade humana. No plano internacional a mensagem espírita não só retornou ao seu berço europeu – onde tinha sofrido duro golpe infligido pelas ditaduras e radicalismos do período das guerras – como já encontra núcleos de propagação em diversos cantos do planeta. Mesmo o Esperanto – a língua da fraternidade internacional tão estimada por nós espíritas – que parecia afogada pelo predomínio da língua dos negócios, continua viva e pronta para desempenhar sua missão quando a globalização começar a mostrar seu verdadeiro papel.

E para dirimir qualquer dúvida de que não estamos ao desgoverno do acaso, das cegas forças do interesse material, que há, acima de tudo, um plano educativo em curso, veja-se o que os Espíritos transmitiram século e meio atrás: “Ocupai-vos desde já com o trabalho que esboçastes sobre os meios de serdes um dia útil aos vossos irmãos em crença e servirdes à causa da Doutrina, porque é possível que os acontecimentos que vão se desenrolar não vos deixem tempo para a ele vos dedicardes. Esses mesmos acontecimentos trarão fases em que o pensamento humano poderá manifestar-se com absoluta liberdade. Nesses momentos, os cérebros em delírio, desprovidos de qualquer direção sadia, engendrarão enormidades tais que o anúncio da própria aparição da besta do Apocalipse não causaria espanto a ninguém e passaria despercebido. A imprensa vomitará todas as loucuras humanas, até esgotar as paixões que ela mesma provocou.

Tal época será favorável aos espíritas. Eles ganharão importância, prepararão seus materiais e suas armas. Ninguém pensará em incomodá-los, porque eles não perturbarão a ninguém. Serão os discípulos do Espírito, e os outros serão os discípulos da matéria.” *

Ou seja, Deus está no controle da situação.

*Acontecimentos – mensagem de 23 de fevereiro de 1868, publicada em Obras

Póstumas, Allan Kardec (EDICEL- trad. de Silvia Mele Pereira da Silva)

(Artigo originalmente publicado no Boletim GEAE Número 387 de 21 de março de 2000)

Esta entrada foi publicada em Artigos, Espiritismo. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *