Qualidade de Vida e Espiritismo

Qualidade de Vida e Espiritismo – José Carlos Leal – 

O povo costuma dizer que é melhor dar que receber, contudo, temos que ter muito cuidado com esse ato. Vejamos as palavras do Apóstolo dos gentios: 1. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como um címbalo que tine. 2. Ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé de maneira tal que transportasse montanhas, se não tivesse amor, eu nada seria. 3. Ainda que eu distribuísse toda a minha fortuna para o sustento dos pobres e entregasse meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, isso nada me valeria.”(Paulo. Primeira Epístola aos Coríntios, cap. XIII: 1-3)

Há muitos anos, ouvi a seguinte história: Em uma cidade do interior, um padre estava na parte superior de sua igreja examinando o campanário. O dia morria, e o sol, como um pássaro de fogo, aninhava-se entre as nuvens da tarde. Naquela hora, o padre observou lá embaixo, na pracinha deserta, dois homens que discutiam. De repente, um deles sacou uma faca e, rápido, cravou-a no peito do outro e saiu correndo. O padre já ia descer para ver se podia prestar uma ajuda ao homem ferido quando viu chegar um outro homem. O recém-chegado se aproximou e, provavelmente, pensando que estivesse auxiliando, tirou a faca do ferimento quando, infelizmente para ele, chegaram algumas pessoas e o encontraram naquela situação suspeita. O homem, embora proclamasse inocência, foi preso e levado para a delegacia. O padre achou que, por um dever de justiça, deveria ir à delegacia e dizer o que havia avisto. Desceu os degraus da igreja e foi até o lugar onde o homem estava preso. Ali chegando, disse ao delegado: – Senhor, eu vim aqui interceder pelo homem que acaba de ser preso. – Sim. Como pretende fazer isso? – Eu vi o assassino e não eram homem que se encontra preso. – E quem era então? – Não sei. Não o conheço. Além disso, já estava escurecendo e o homem estava de costas para mim. – Padre, não sei o que se passa. Tenho um homem apanhado em flagrante delito, com a arma do crime na mão, e o senhor quer que eu o solte, apenas porque o senhor diz que ele não matou. A polícia precisa de mais coisas além de sua palavra, vigário. Por enquanto, ele é o acusado e não vamos soltá-lo. O padre saiu da delegacia bastante aborrecido. Na igreja, veio-lhe à mente um pensamento e falou consigo mesmo: “Apenas eu e Deus sabemos a verdade sobre aquele homem. Se ele for condenado, haverá clara injustiça; eu não posso fazer nada, mas Deus pode.” Assim pensando, o padre esperou o desfecho dos acontecimentos, acreditando que, em algum momento, Deus faria a verdade vir à tona, contudo, nada aconteceu. O homem foi julgado e condenado. O padre entrou em forte crise de fé e decidiu deixar a batina porque não poderia servir a um Deus injusto ou mesmo a uma fantasia criada pela imaginação humana. No dia seguinte, disposto a deixar a igreja, ao sair para o seu passeio matinal, bem na porta da igreja, encontrou um rapaz desconhecido que lhe falou com autoridade: “Vigário, vá lá nos fundos da igreja, pegue uma enxada e venha comigo.” O padre achou tudo aquilo muito esquisito e o mais estranho é que não podia deixar de obedecer ao rapaz. Foi ao local onde guardava as ferramentas, pegou a enxada e acompanhou o desconhecido. Cerca de uns quinhentos metros, em um terreno vazio, ele disse ao padre: “Vigário, cave aqui.” O padre cavou e desenterrou alguns ossos muito velhos. O rapaz insistiu: “Cave aqui também.” E assim, o padre foi cavando e desenterrando ossos. Por fim, o rapaz falou: – Está vendo esses ossos? -Sim, estou. – Pois bem. Lembra-se do homem que foi preso e condenado por um crime que não praticou. -Claro que me lembro. – Muito bem. Ele não praticou aquele crime, mas praticou estes. Na época em que os fez, por ser um homem muito poderoso, escapou aos rigores da lei e agora está acertando contas. – Padre, volte para a sua igreja e continue servindo a Deus, pois Deus é justo. O que vemos na Terra, e que nos parece injustiça, resulta de nossa ignorância da vida espiritual.”

Essa história revela, com clareza, a lei de causa e efeito. Nada do que fazemos neste mundo, e que perturba a nossa evolução, pode ser deixado para lá. Julgo que é disso que Jesus está falando ao dizer: “Não saireis daqui sem terdes pago o último ceitil.”

Um professor do Estado contou-me uma história muito interessante que passo  a vocês do modo como a ouvi. Disse-me ele que seu pai era um homem muito sensível e caridoso. Gostava de ajudar, sem nada receber em troca. Havia, no bairro onde ele morava, um rapaz que mendigava pelas ruas, dormindo sob as marquises e se alimentando dos restos que as pessoas davam a ele. O pai do meu amigo ficou com tanta pena do rapaz que resolveu dar-lhe uma ajuda. Certa manhã, chamou o mendigo e lhe ofereceu uma oportunidade de trabalho: ele tinha uma casa de praia que havia sido praticamente abandonada porque  seus filhos, crescendo, não mais se interessaram por ela. Ele a ofereceu ao mendigo para que fosse morar lá, tomar conta da casa, cuidar da limpeza do lugar e fazer pequenos serviços de conservação. Para auxilia-lo ainda mais, deu-lhe um salário que era um pouco mais do que o mínimo. O homem ficou feliz em ter dado aquela oportunidade ao antigo mendigo que ele próprio transportou em seu carro até a casa de praia. Alguns meses depois, para a sua tristeza, soube que a sua casa havia se transformado em um centro de venda de drogas em que o antigo mendigo estava trabalhando como gerente. E o pior é que ele tomou conhecimento disso por meio da polícia que havia estourado o lugar. Para se defender, o ex-mendigo declarou à polícia que o pai do meu amigo sabia daquela atividade na casa. Aquele mendigo era um espírito muito frágil e a sua situação social era boa para ele, uma vez que não tinha ainda condições morais para viver de outro modo. O estado de mendicância era, muito provavelmente, um freio para que ele não desenvolvesse as suas más inclinações. Permitam-me uma comparação. Há algum tempo, fui professor de um colégio estadual em Marechal Hermes. O meu horário era bastante imprensado e eu era obrigado a almoçar em um restaurante perto da escola. Um dia, eu estava almoçando em uma parte do restaurante que dava para a calçada, quando se aproximou um mendigo e me pediu restos da minha comida. Fiquei tocado e pedi a ele que entrasse e sentasse comigo à mesa. Ele ficou meio confuso, mas, como eu insistisse, entrou e se acomodou. Disse a ele que escolhesse no menu o que desejava, novamente ficou perturbado, então, pedi ao garçom que servisse a ele o mesmo que eu estava comendo. O homem começou a comer com vontade, mas, de repente, pegou o garfo e separou metade da comida, colocando a de lado. Perguntei a ele: – O que foi? Não gostou? – Gostei sim senhor. – Não vai comer essa parte? – Não senhor, vou botar neste saquinho de plástico e leva para a minha mulher. Aquela fala mexeu comigo. Pedi ao garçom uma outra refeição em uma quentinha para ele levar à sua esposa. Nunca me esqueci daquele mendigo que demonstrou tanta solidariedade para com a esposa. Outra coisa me impressionou bastante: ele não pediu comida para a sua mulher, simplesmente renunciou parte de sua comida em favor dela. Nesse caso, a prova desse homem estava sendo útil a ele como crescimento.

Um companheiro de Doutrina Espírita contou-me uma história muito interessante que se encaixa aqui perfeitamente. Disse ele que, de uma certa feita, com outros companheiros, viajava em uma kombi pelo interior do Estado de São Paulo. Ao passarem por um descampado, tiveram sede, e pararam o veículo ao avistarem uma casa humilde na beira do caminho. O grupo saltou do carro e foi até a pequena casa. Ali foram atendidos por uma senhora que, pedindo muitas desculpas, disse a eles que entrassem para beber água. No interior da casa havia um cômodo no qual estava uma pessoa deitada. Um dos membros do grupo perguntou a mulher quem era o doente. A mulher explicou que era um seu sobrinho, que havia sido abandonado por sua irmã porque nascera sem braços nem pernas e inteiramente mudo. Um outro companheiro perguntou à mulher se ela se importava que se fizesse uma prece por ele. A mulher concordou. O grupo entrou no quarto e começou a prece. Entre eles, havia um que era médium de incorporação. Em uma certa passagem da prece, esse médium foi tomado por um espírito que disse com profunda tristeza: “Foi a única maneira que tivemos para que o meu filho pudesse ouvir o Evangelho.” O espírito só disse isso e mais nada. A tia, ainda emocionada falou: “É  engraçado, costuma vir aqui uma pessoa da igreja rezar para ele e ler a Bíblia. Ele até que gosta, não é, Toninho? Você não gosta?” O rapaz nada respondeu, apenas olhou para todos os presentes e no olhar dele havia muita dor, mas não revolta. Ensinam os espíritos que a nossas existências em corpos físicos não se dão apenas na Terra, mas também em outros mundos habitados. As encarnações que temos na Terra não serão as primeiras nem serão as últimas, trata-se, entretanto, das mais inferiores e distantes da perfeição. As esferas habitadas que giram no espaço infinito assemelham-se a escolas por que passam os espíritos na sua caminhada evolutiva. Desse modo de ver, somos cidadãos do Cosmo, viajantes do Universo, e a nossa importância cresce consideravelmente. Assim, os espíritos que tenham dificuldade em avançar podem permanecer em um determinado mundo até que tenham superado as condições de progresso daquele globo e possam encarnar em outro com melhor nível de adiantamento. Foi por esse motivo, muito provavelmente, que Jesus disse um dia: “Na casa de meu Pai, há muitas moradas.” Sendo assim, podemos, reencarnar na Terra muitas vezes, passando por aqui uma grande quantidade de tempo, caso não consigamos arregimentar forças para avançarmos mais. Os espíritos, a rigor, não pertencem a um mundo específico. Um espírito vindo de outro planeta pode encarnar na Terra, assim como um de nós poderá encarnar em outro mundo, naturalmente compatível com a nossa evolução. Tudo isso, entretanto, se dá dentro de uma ordem rígida e segundo leis estabelecidas por Deus. Viver na Terra, contudo, não é uma necessidade essencial dos espíritos. O que eles têm é que passar pelas condições morais e intelectuais da Terra, e existem outros planetas que se encontram mais ou menos nas mesmas condições que o nosso. Desse modo, não há vantagem ou privilégios em se encarnar na Terra. Em geral, pode-se dizer que se progride na Terra como se pode progredir em outro planeta qualquer.

A pergunta 176 de O Livro dos Espíritos aborda um tema interessante. Ali se lê:   “Depois de haverem encarnado em outros planetas, podem os espíritos  encarnar neste, sem que jamais aí tenham estado?”

R. Sim, do mesmo modo que vós em outros. Todos os mundos são solidários: o que não se faz em um, faz-se em outro.”

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