O Bem e o Mal

Dalmo Duque dos Santos

“O mal não merece comentário em tempo algum”. Esse conhecido tema de reflexão é repleto de verdade, mas quando repercute em nosso íntimo geralmente encontra pouco eco, pois a nossa realidade cotidiana ainda é muito influenciada pela negatividade. O mal existe de forma intensa em nosso meio, predomina em nosso psiquismo e conseqüentemente retorna para o ambiente em que vivemos. O círculo é vicioso. A causa principal dessa tendência é a ignorância das leis universais e o materialismo, ou seja, a negação imortalidade e da vida espiritual futura. Esse bloqueio do ponto de vista espiritual impede o entendimento da diferença entre existir e viver e restringe a perspectiva humana aos seus limites objetivos e biológicos. A negação da vivência psicológica e da subjetividade espiritual enfatiza o mal na sua experiência, dando a impressão inversa de que o Bem é uma utopia, muitas vezes fora de cogitação. É desse desvio do ponto de vista que surgem conceitos como “os fins justificam os meios”. Somente a maturidade espiritual, adquirida pelas múltiplas existências, mesmo que o indivíduo não acredite nessa possibilidade de renascimento carnal, é que desperta o senso de justiça e a substituição gradual do mal pelo Bem. Essa substituição acontece silenciosamente nos bastidores da consciência individual, nas inúmeras experiências, simples ou marcantes, negativas ou positivas, nas quais o ser adquire novas formas de pensamento, de sentimentos e de atitudes. O livre arbítrio passa a ser utilizado com maior grau de responsabilidade e as pessoas começam a perceber que trazem consigo não somente o instinto de sobrevivência biológica, mas um algo mais, uma equação existencial para ser solucionada num curto espaço de tempo. Uma existência de apenas 70 anos deixa de ser uma simples fonte de satisfação de prazeres da carne e dos vícios mentais e torna-se um veículo de realizações para despertar de novos desafios íntimos. Uma enorme sensação de insatisfação passa a ocupar o mundo íntimo dessas pessoas e suas cogitações sobre o tempo e as conquistas mudam totalmente de rumo, caso elas decidam realmente mergulhar em i próprias. Do contrário, frustram-se.

Então, o que fazer para evitar essa predisposição que temos em valorizar mais as coisas negativas do que as positivas? Como mudar essa crença de que o mal é sempre mais forte do que o bem? Estaríamos sendo incoerentes e hipócritas, num mundo hostil como a Terra, ao negarmos o mal e cultivarmos poeticamente o bem?

É senso comum, entre os espiritualistas, que nosso planeta é um típico mundo de expiações e provas, onde predomina o mal. Estamos numa fase de transição para uma categoria supero, de regeneração, ou seja, o mal ainda existirá por algum tempo, mas não será mais predominante. Os renascimentos traumáticos e as existências tumultuadas ainda serão comuns, mas diminuirão na medida que haja uma expansão do conhecimento superior e da consciência espiritualizada. O mal ainda predomina. Tudo bem! Mas também existe a possibilidade de se praticar o bem. Aliás, este é o real significado da categoria do nosso planeta, isto é, um campo de provas, de experiências, de tentativas, portanto de inúmeras possibilidade de se realizar o Bem. Fazer o bem em mundos superiores é fácil e até redundante; pode até ter valor como aprendizagem, mas não mais como fator evolutivo essencial. Nesses lugares se faz o bem por espontaneidade e não por necessidade de recuperar o tempo perdido ou pelo resgate de faltas. Essa possibilidade de fazer o bem num campo onde predomina o mal é uma prerrogativa do livre-arbítrio; ele é o recurso natural no qual o Ser realiza escolhas e toma decisões nas situações de prova, quase sempre contraditórias e confusas. Isso faz parte do jogo evolutivo. Como dizia o filósofo estóico Epicteto, ninguém progride sem demonstrar equilíbrio diante das coisas contraditórias. É nas situações confusas e desesperadoras que a mente humana adquire experiência real, supera limites, fica mais inteligente e finalmente se transforma no reduto de poderosas forças morais.

Portanto, no planeta Terra, o Bem não é apenas poesia ou ficção. Ele é uma realidade que está ligada às forças naturais de transformação que impulsionam os seres e as coisas rumo à perfeição. Já o mal é uma possibilidade momentânea de estagnação, pelas forças retrógradas, que trabalham em sentido contrário, mas sempre funcionando como suporte secundário de leis superiores. Por isso se diz que Deus escreve certo por linhas tortas. Sendo uma força de transformação, a prática do Bem gera mudanças em nosso mundo interior e no ambiente em que vivemos. Quando não conseguimos essa mudança de forma imediata, ainda assim entramos em processo íntimo de mudança, de ampliação do grau de consciência, mesmo porque o mal sempre nos causa uma incômoda dinâmica de insatisfação e infelicidade. Mesmo aqueles seres maus e intransigentes são marcados por essa insatisfação, feridos pelo espinho constante da consciência. Esse também é o motivo provável pelo qual muitas pessoas boas, inteligentes, cheias de vida e de futuro promissor, morrem ainda jovens e repentinamente. Muitos desses casos são pessoas que passam por experiências íntimas imperceptíveis aos olhos alheios e que atingem um grau de transformação suficiente numa existência, não necessitando mais conviver em ambientes atrasados e maléficos, a não ser que queiram, por questões pessoais ou de auxílio ao próximo.

Estando infelizes e insatisfeitos, geralmente procuramos uma mudança que possa alterar esse estado desagradável e que nos causa sentimentos negativos. Não estando conscientes dessa situação de mudança íntima, cedemos aos impulsos inferiores: pensamentos negativos, comentários maldosos, inveja, auto-destruição, etc, com se fosse um prazer emocional que nos faz suportar as situações difíceis. Mas é um prazer egoísta e solitário, que engana e agrava os sentimentos e emoções e só faz aumentar a insatisfação e sofrimento por estarmos numa condição espiritual inferior. Daí vem o pessimismo, a descrença no Bem e a supervalorização do mal. Na maioria das vezes só conseguimos reverter positivamente essa situação quando sofremos e derramamos lágrimas de reflexão. Afirmam os sábios que é preciso saber chorar e tirar proveito reflexivo das lágrimas. Assim evoluímos. Do contrário, o que sobra depois delas é o desencanto, a revolta, a sensação de impotência, fracasso e a estagnação. Aqui também, geralmente, se forma um círculo vicioso.

Artigo Reproduzido com Autorização do Autor

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