Mundos Paralelos

VENCENDO O TÓXICO • Francisco   Cândido Xavier
Envio-lhe   a mensagem recebida numa ligeira reunião de preces, formada com quatro amigos   procedentes de cidade distante. Três deles acompanhavam um rapaz que   enveredara nos tóxicos. Com ele completávamos um grupo de cinco pessoas. O   jovem de vinte e dois anos de idade pediu para orarmos juntos, buscando a   força de que se sentia necessitado para esquecer os euforizantes.

Depois   da prece, o amigo espiritual que lhe fora pai na Terra compareceu em nosso   ambiente e escreveu ao filho a carta que vai anexa. O rapaz reconheceu a   presença paterna, chorou comovido e levou consigo a mensagem no original.   Alguns meses depois voltou ele com dois dos amigos que o trouxeram ao nosso   convívio pessoal. Mostrou-se plenamente refeito, corajoso para a vida. E, ao   declarar-se reconduzido aos estudos que havia abandonado, entregou-me uma   cópia da carta paterna por nós psicografada.

Os   amigos que o seguiam sugeriram-me enviar essa página às suas mãos, para a   divulgação com nossos estudos conjuntos.

O rapaz   também aceitou a ideia, solicitando apenas que o nome do genitor seja   colocado em iniciais, por motivos de respeito filial.

CARTA DE PAI • J.   R.

 

Meu   filho,

Compreendemos,   sim.

Atiramos-te   à luta, sem considerar-te a mentalidade em reformulação.

Quantas   vezes tua mãe e eu te entregamos a mãos mercenárias e quase sempre   irresponsáveis, quando despontavas do berço, à vista dos imperativos de   relacionamento social! Noutras ocasiões, assim procedíamos de modo a   desfrutarmos sozinhos as horas feriadas que nos surgissem, a título de   refazimento ou distração. E, em regressando a casa, nunca te perguntamos pelo   que viste ou ouviste, a fim de estabelecermos contigo um diálogo adequado   para que se te pacificasse o espírito inquieto à frente da vida.

Enviamos-te   à escola, no entanto, para falar a verdade, não expressávamos interesse   permanente por teu currículo de lições. E quando nos apresentavas certos   assuntos colhidos involuntariamente à margem do ensino, frequentemente   dávamos de ombros, julgando-te a conversação demasiado infantil,   afastando-nos sob pretexto de serviço urgente.

Largamos-te   às impressões alheias, nem sempre as mais construtivas, de maneira a nos   encasularmos no ócio doméstico.

Quiseste   associar-nos às tuas companhias e leituras, caminhadas e afetos, mas, via de   regra, recusamos-te o convite, com a desculpa de fazer dinheiro ou mobilizar   providências para sustentar-te, qual se fosses um peso em nossa economia ao   invés de abençoada luz do nosso amor. Distanciamo-nos de ti e deixamos-te a   sós, impensadamente, é verdade.

Achávamo-nos   como que anestesiados pela obsessão de ganho para excessivo conforto,   incapazes de oferecer-te cobertura nos domínios do coração. A morte,   entretanto, apareceu quando nem havíamos começado a pensar convenientemente   na vida, a transferir-nos de plano, e hoje te vemos em perigo,   espiritualmente desprotegido, cansado, desiludido, enredado em desequilíbrio   e doença.

Somente   agora reconhecemos o quanto te amamos, unicamente agora notamos que não teremos   futuro sem ti. E porque nada conseguimos realizar de bom sem amor, ante a   necessidade de nossa reintegração nos interesses e aspirações uns dos outros,   abeiramo-nos com humildade do caminho em que segues hoje, tão longe de nós,   para dizer-te simplesmente:

–   Considera o nosso engano e perdoa-nos, meu filho!…

 

MUNDOS PARALELOS • J. Herculano Pires (Irmão Saulo)

As   criaturas que se aturdem com a situação atual do mundo geralmente não sabem   que ela repercute de maneira profunda no mundo espiritual, nesse universo   paralelo que nos cerca e com o qual estamos em permanente comunicação.

Em   nossas reuniões mediúnicas, temos recebido a visita de hippies do além, alguns ainda presos à   sua desorientação terrena, outros já refeitos e que se portam como hippies no bom sentido, convertendo ao   bem os seus hábitos e as suas expressões. A juventude transviada é o produto   da desorientação dos pais, da maldade dos adultos, do egoísmo que corrói o   coração das velhas gerações. Por isso, a revolta dessa juventude é um desafio   à nossa falta de compreensão e à nossa falta de amor.

No   episódio que hoje divulgamos temos a retratação de um pai que volta ao meio   terreno, através da mediunidade de Chico Xavier, para pedir perdão ao filho   que não soube compreender em vida. O resultado, como vimos, foi satisfatório,   pois o coração do filho, sedento de amor, encontrou na mensagem paterna o   bálsamo que lhe faltava. Graças a isso conseguiu vencer o seu desespero e   reintegrar-se na vida e nos estudos que havia abandonado. Se os pais de hoje   pudessem compreender o sentido e o objetivo da vida terrena que a mensagem   espírita esclarece, esta fase de transição do nosso mundo seria menos   trágica.

A   civilização do conforto, do gozo, da ganância sem limites, apagou o espírito   e lançou a criatura humana nas trevas. “Achávamo-nos como que anestesiados   pela obsessão de ganho para excessivo conforto – escreve o pai nas garras do   remorso –, incapazes de oferecer-te cobertura nos domínios do coração.” É   essa a situação da maioria das criaturas nesta fase final de uma civilização   que se devora a si mesma. Mas Deus não se esqueceu dos homens e os leva, pelo   despertar mediúnico, à civilização do espírito, reacendendo na carne as luzes   espirituais que espantarão as trevas.

Somos   “bichos”, segundo a expressão hippie, preferindo a vida animal à   espiritual. Buscamos “paz e amor”, mas a paz do conforto ilusório e o amor   carnal. Mas os espíritos ressuscitam a mensagem do Evangelho e provam, como o   Cristo provou no seu tempo, com os dramas da obsessão e da possessão, que o   nosso destino é espiritual e não material, que o nosso rumo é a   transcendência e não a acomodação às condições animais do corpo.
Artigo publicado originalmente   na coluna dominical “Chico Xavier pede licença”
do jornal Diário de S. Paulo, na década de   1970.

 

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