Elitização do Movimento Espírita, um caminho contrário à Caridade

ELITIZAÇÃO DO MOVIMENTO ESPÍRITA

UM CAMINHO CONTRÁRIO À CARIDADE

 Ismael Batista da Silva

Guaxupé/MG

Quem me conhece sabe que não sou do tipo de ficar jogando pedras em ninguém, pois não me sinto com capacidade de julgar quem quer que seja, sou, ainda, muito falho. Porém tenho o dever de zelar pela preciosidade que Deus me ofereceu: o Espiritismo.

Como todos os divulgadores da doutrina, procuro acompanhar o nosso movimento através de jornais, revistas e, sobretudo, da internet. Confesso que, em observando algumas iniciativas atuais de alguns dirigentes, mesmo entendendo “suas razões”, tenho ficado um tanto preocupado com aquilo que o Chico Xavier mais temia: ver o movimento espírita se tornar elitista.

Sei que o movimento espírita é constituído em boa parte por pessoas mais intelectualizadas, mas isso não impede de nos voltarmos para o caminho da humildade e da caridade que somos convidados, doutrinariamente, a vivenciar.

Estou observando, por exemplo, que eventos pomposos estão sendo realizados em nome de uma doutrina que nos chama para uma vivência puramente cristã, como acontecia na época de Jesus, onde todo espírito vibrava fraternidade e estava voltado para o bem coletivo.     Afinal, o Espiritismo é ou não é a revivescência do Cristianismo? Precisamos aprender a conviver nos momentos corriqueiros, nas dificuldades e desfrutar dos banquetes espirituais em conjunto, apesar das diferenças que nos assinalam, pois só assim vamos viver harmoniosamente.

E o que estamos fazendo? Parece-me que estamos, atualmente, caminhando no sentido contrário. Programando atividades onde somente os mais endinheirados podem participar. E os nossos irmãos mais pobres em moedas, onde ficam? Somente nas cadeiras dos centros ouvindo os intelectuais e na hora de um evento maior não podem participar? Ou então, no fundo das cozinhas dando duro e longe dos ensinamentos ministrados no recinto luxuoso? E aqueles que só podem ir para ficar guardando os carros dos chefões doutrinários?

Ah!… Mas estamos num mundo material e, aqui, tudo custa dinheiro: alguns argumentam. Sim. Correto. Mas se desejarmos fazer um evento grandioso, deveríamos então nos programar melhor e, o grupo interessado na sua realização, buscar outras fontes de rendas para o custeio, seja com trabalho próprio, patrocínios e outras iniciativas justas e coerentes, sem prejudicar, com isso, a participação daqueles que não podem pagar e/ou comprar obras dos oradores famosos.    

Muitos companheiros, felizmente, já fazem isso. Temos bons exemplos de excelentes eventos, com a participação dos mais renomados oradores, cantores que são realizados graciosamente e alguns, inclusive, são feitos até em lugares públicos, onde toda e qualquer pessoa pode participar sem nenhum constrangimento e taxa.

Esse deve ser o movimento espírita como idealizou Allan Kardec e depois os seus mais legítimos seguidores.

Fico imaginando Cairbar Schutel, Eurípedes  Barsanulfo, Batuira, Dr. Bezerra e tantos outros exemplos de vivência cristã e dedicação que tivemos no movimento espírita, se hoje estivessem reencarnados, realizariam ou participariam de alguma atividade espírita cobrando taxa dos interessados? Evidentemente que não, pois testemunharam a grandeza espiritual de que são portadores, exatamente pelo amor a doutrina, desprendimento e devotamente ao espírito coletivo.

Será que Allan Kardec aceitaria realizar uma palestra ou algum seminário, onde a compra de suas obras seria obrigatória para se participar?

Com certeza, jamais ele aceitaria participar de algo tão materialista e tão contrário aos seus ideais. Sua meta era e é, tão somente,  corroborar para a espiritualização de todos, indistintamente.

O endeusamento de palestrantes e médiuns está, cada vez mais, tomando conta do movimento espírita. Sabemos que isso é, por demais, prejudicial à evolução dos mesmos, mas continuamos a endeusa-los. Triste engano e mais triste ainda é ver que muitos deles aceitam, até com alegria, serem tratados como celebridades ou Pop Star.

Alguns se esquecem de que mais será cobrado daquele que mais recebeu. Que outros trouxeram o trabalho por misericórdia divina, pois pediram clemência para não terem que suportar tantas dores no mundo, se colocando para resgatarem seus débitos, levando mensagens espiritualizadas que eles próprios são os primeiros que precisam conscientizá-las.

Dias atrás vi uma propaganda de um evento espírita que acontecerá no nordeste que me deixou de queixo caído. Para participar do referido trabalho, o interessado deverá pagar R$ 100.00 por palestra, recebendo duas obras do palestrante do dia, podendo pagar até em três vezes no cartão de crédito. Pense bem: Por esse valor de entrada pode-se assistir os megas shows envolvendo os melhores artistas brasileiros.

Onde estamos? O que é isso? Será que o Cristo, sobretudo num momento em que a Terra está passando por duros abalos materialistas, precisando de Sua mensagem com urgência, apoiará um evento como esse? Será que os Benfeitores estarão, mesmo, dando cobertura a essa gente? Só mesmo se for pela misericórdia divina, pois pela razão ficariam todos ao bel prazer de seus atos materialistas.

Vamos fazer eventos onde todos podem participar sem constrangimento e sem o espírito separatista. Se não puder fazer suntuoso, que seja simples e rico de alegria cristã. Se  for cobrar algo, que seja simbólico para alimentação, mas de preferência que seja aberto a toda gente.   Vamos exaltar a espiritualidade, a fraternidade que estamos sendo convidados a desenvolver em nossa humanidade e não a nossa materialidade orgulhosa! Pense nisso.

Ismael Batista da Silva

redeamigoespirita

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