Dores da alma

Dores da alma

Dores da alma

Warwick Mota (*)

 A transitoriedade é uma das características que marcam os mundos de expiação e provas, como o planeta em que vivemos.

Nesses orbes, os acontecimentos são sempre de natureza breve ou temporária, não possuindo, nenhum sofrimento ou alegria, caráter definitivo, e a perturbação e a incerteza estão presentes em toda a ordem social, em atos e fatos.

Para esse cenário de intermitência, afluem acontecimentos de todos os matizes. Tramas e dramas desenvolvem-se, pontilhados pela dor, e experiências são vividas sob diversas formas, resultando, a cada ser, num legado moral que termina por impulsionar o homem ao cumprimento inexorável da Lei do Progresso.

Situa-se, nesse panorama de avanço, a dor, como ferramenta fundamental ao burilar das criaturas, em seu processo de desenvolvimento, pois ela, a dor, está presente em todo o caminhar da humanidade, como o látego que nos faz acelerar o passo e andar para frente, retomando os caminhos que, muitas vezes, perdemos em divagações e equívocos.

 Inobstante à ampliação das conquistas materiais e tecnológicas humanas, vivemos dias de crises morais na Terra. Dias de perda de valores de consciência, de sofrimento pela ausência de afeto; pelas falsas escolhas, em uniões infelizes; pela falta de apoio; pela ambição desmedida; pela falta de temperança e bom senso. A verdade é que ainda somos seres que tateiam, no campo das realizações interiores.

 Nesse cenário, a dor é o instrumento pedagógico por excelência, porque muitos caem por sua própria culpa, e a ninguém é dado fugir aos ditames da lei. E, especialmente, a dor moral, aquela sentida no âmago da alma, tem o condão oportuno de provocar profundas reflexões. É quando ela lateja, a dor moral, que o Espírito, independentemente da sua condição, se encarnado ou desencarnado, passa a enfrentar o tribunal da própria consciência.

 Nos momentos de encontro conosco mesmos, palmilhados pelo sofrimento moral, nossos atos equivocados provocam intensa angústia, acompanhada do sentimento de vergonha, da negação de nós mesmos. À luz desse cenário, o remorso potencializa o sofrimento, e a culpa faz-se verdugo impiedoso. 

 É a hora de se aprender para a eternidade.

 Aprende-se com as experiências dolorosas e compreende-se, a duras penas, que só evoluímos quando incorporamos as situações vivenciadas como aprendizado perene, do espírito.

 É quando as dores da alma podem nos ensinar, para as experiências futuras.

 Da mesma forma que o arco-reflexo nos impedirá de colocarmos o dedo numa superfície quente, porque uma vez já nos queimamos, nossas experiências passadas, se bem compreendidas, impedir-nos-ão de sermos reincidentes nos erros, para que não soframos novamente.

 Ensinam-nos os Espíritos que todas as particularidades da nossa vida são registradas em nosso perispírito, gerando lembranças inapagáveis. As dores verdadeiramente sentidas, as dores da alma, essas nos marcam indelevelmente.

 A contrapartida da dor é que ela produzirá, na alma encarnada ou, com mais intensidade, no espírito desencarnado, o arrependimento e, com ele, a vontade sincera de se reconstruir a aliança com o Criador, aplacando-se a tempestade íntima e dando-se início ao processo de recondução do ser ao caminho do Bem.

 O reencontro com Deus significa, por fim, a renovação. Promove a auto-reconciliação e abre novas perspectivas para o recomeço. É o amor do Pai que se derrama sobre nós, revestido de formas inumeráveis, sendo o amor que se manifesta sob todos os aspectos, da forma mais simples à forma mais elaborada, da forma mais sutil à forma mais profunda.

 É pelo amor incondicional de Deus que somos reconectados aos caminhos do Bem e à conquista final da liberdade, conforme estabelece a proposta de Jesus:

 Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (1)

 Quando ouvimos o chamado do Divino Amigo, sentimo-nos fortes e resolutos. Então as dificuldades apequenam-se, porque a força que nos impulsiona é muito superior, e uma serenidade, antes inalcançável, transforma-nos em fortalezas de fé que nos fazem vencer as intempéries da travessia.

A par disso tudo, cumpre-nos saber que “tudo o que vive neste mundo, natureza, animal, homem, sofre, e, todavia, o amor é a lei do Universo e por amor foi que Deus formou os seres”. (2)

 Em que pese o buril penoso da dor que nos emula, fomos criados pelo e para o amor, e essa certeza do amor incondicional de Deus para com as suas criaturas renova nossas esperanças e fortalece a nossa resignação perante todas as provas e todas as expiações.

 Referências:

1)      Mateus, 11: 28-30

2)      DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor: os testemunhos, os fatos, as leis. 32ª. ed. FEB: Brasília, 2013, p. 347.

(*) Transcrito de jornal “O Clarim”; Matão, janeiro de 2016, p.3: https://www.oclarim.org/oclarim/materias/4531/jornal/2016/Janeiro/d…;

e de: http://grupochicoxavier.com.br/dores-da-alma/

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