Visitas Espíritas entre Pessoas Vivas

Visitas Espíritas entre Pessoas Vivas

Artigo do Jornal: Jornal Agosto 2019

Por Cláudio Conti

A afirmação de que encarnados se visitam durante o sono, seja natural ou induzido, pode causar consternação, pois não costumamos pensar em nós mesmos como espíritos. Temos a tendência a não considerar que tudo aquilo que a Doutrina diz com relação aos espíritos, todos os fenômenos, também se aplica aos encarnados. Contudo, é imperioso termos a certeza de que somos todos espíritos, encarnados ou não, e, inclusive, há a possibilidade de um encarnado em desdobramento se manifestar, por um processo mediúnico, através de um médium.

Léon Denis, muito sabiamente, disse:

“(…) o homem é para si mesmo um mistério vivo. De seu ser não se conhece nem utiliza senão a superfície. Há em sua personalidade profundezas ignoradas em que dormitam forças, conhecimentos, recordações acumuladas no curso das anteriores existências, um mundo completo de ideias, de faculdades, de energias, que o envoltório carnal oculta e apaga, mas que despertam e entram em ação no sono normal e no sono magnético”[1].

A emancipação da alma, durante o sono, ocorre com todos os encarnados por ser mesmo uma necessidade, um refúgio das agruras da encarnação. Diante disso, Kardec questionou os espíritos se essa aparente dualidade seriam duas existências simultâneas. Uma, ligada ao corpo físico, permitindo uma vida de relação mais ostensiva e outra, liberta do corpo, proporcionando a vida de relação oculta. A resposta, no entanto, foi muito clara: “No estado de emancipação, prima a vida da alma. Contudo, não há, verdadeiramente, duas existências. São antes duas fases de uma só existência (…)”[2].

Nesse contexto, tomemos como exemplo a cidade do Rio de Janeiro, com mais de seis milhões de habitantes. Quantos desses se conhecem e mantêm um laço afetivo? Quantos possuem interesses em comum? Podemos considerar que, à noite, a maior parte se encontra em desdobramento. Como não mantemos relações com outros encarnados apenas no estado de vigília, muitos que não se conhecem enquanto encarnados, podendo, inclusive, encontrar-se nos caminhos da vida e não se reconhecer, quando emancipados, são grandes amigos ou conservam profundo laço afetivo.

Falamos de seis milhões de pessoas apenas na cidade do Rio de Janeiro, contudo, quando consideramos o planeta como um todo, esse número ultrapassa sete bilhões de pessoas. É impossível precisar quantas se conhecem enquanto espíritos, mas não como encarnados.

Os espíritos responsáveis pela Codificação Kardequiana dizem que: “Muitos que julgam não se conhecerem costumam reunir-se e falar-se. Podes ter, sem que o suspeites, amigos em outro país. É tão habitual o fato de irdes encontrar-vos, durante o sono, com amigos e parentes, com os que conheceis e que vos podem ser úteis, que quase todas as noites fazeis essas visitas”[3].

Em decorrência, podemos conceber o quanto nossa existência é rica em experiências, pois, durante o sono, não temos as limitações de trânsito imposta pela matéria. Assim, um deslocamento de um país para outro pode se realizar com a velocidade do pensamento, sem necessidade de aeroporto, passagens, tarifas, translado etc. Os espíritos percorrem o espaço com a rapidez do pensamento [4], pois a matéria densa impõe limitação ao corpo, mas não à alma [4].

Um fato interessante é que o espírito não necessariamente percebe a distância que percorre. Assim, uma “viagem longa”, transcorrendo com a rapidez do pensamento, é instantânea e, se não for consciente, pode não ser percebida pelo viajante. Em contrapartida, nas “viagens conscientes” o espírito poderá se aperceber de todo o trajeto. A possibilidade, ou melhor, capacidade de realizar as “viagens conscientes” está atrelada ao entendimento do espírito e ao seu nível evolutivo. Isto é informado na Codificação, ao dizerem que “o espírito pode perfeitamente, se o quiser, inteirar-se da distância que percorre, mas também essa distância pode desaparecer completamente, dependendo isso da sua vontade, bem como da sua natureza mais ou menos depurada”[5].

Parafraseando Léon Denis [1], o homem realmente é um mistério para si mesmo. Em decorrência da pouca capacidade de entendimento, ou de interesse, pois a pouca capacidade pode ser compensada pelo interesse em entender, o espírito compatível com um mundo de expiações e provas, tende a se ocupar com o que, de alguma forma, sensibiliza os sentidos físicos, acreditando, desta forma, ser tudo o que existe. Assim, em O Livro dos Espíritos encontramos o que ocorre no íntimo da maioria dos espíritos ligados à Terra: “entregam-se às paixões que os escravizaram, ou se mantêm inativos. Pode, pois, suceder, tais sejam os motivos que a isso o induzem, que o espírito vá visitar aqueles com quem deseja encontrar-se. Mas, não constitui razão, para que semelhante coisa se verifique, o simples fato de ele o querer quando desperto”[6].

Em contrapartida, para aqueles mais conscientes da sua realidade como espíritos, cientes da sua natureza mais básica, “adormecendo o homem, seu espírito desperta e, muitas vezes, nada disposto se mostra a fazer o que o homem resolvera, porque a vida deste pouco interessa ao seu espírito, uma vez desprendido da matéria”[6].

O conhecimento apresentado pela Codificação Espírita é fundamental para espíritos ligados a um mundo de expiações e provas como a Terra, somos equivocados por definição e, portanto, precisamos trabalhar pela própria transformação.

Notas bibliográficas:

  1. Léon Denis. No Invisível, pg. 131.
  2. Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, Questão 413.
  3. Idem. Questão 414.
  4. Idem. Questão 89.
  5. Idem. Questão 91.
  6. Idem. Questão 90.
  7. Idem. Questão 416.

Fonte: Correio Espírita

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