Saulo

Saulo
Autor: Alcione Peixoto

“ Saulo, Não Te Detenhas No Passado! Quem Haverá, No Mundo, Isento De Erros?! Só Jesus Foi Puro!…” O texto com que abrimos nossas reflexões de hoje foi extraído do livro “PAULO E ESTÊVÃO”. Fala de um encontro do Apóstolo, durante o sono, com Abigail e Estêvão, este que fora morto por apedrejamento, por ordem do próprio Paulo. Estêvão profere tais palavras abraçando-o efusivamente, como se o fizesse a um irmão amado, beijando-lhe a fronte com ternura. Como precisamos todos nós, errantes, de um abraço efusivo, verdadeiro, de um beijo de ternura em nossa fronte contraída, seja pelas acusações do mundo e dos homens, seja pelos gritos de reprovação da nossa própria consciência. E tão poucos são os que se dispõem a afagar as almas dos caídos do espírito!
Paulo, como todos que despertam para a verdadeira e única razão de ser da vida humana na Terra, frequentou desertos interiores onde vendavais açoitavam sua alma com as lembranças dos erros do passado. Essas tormentas interiores, sempre que nos ocorrem, costumam lembrar-nos do que poderíamos ter feito de diferente em nossas vidas, caso tivéssemos, então, as experiências e os conhecimentos que só mais tarde percebemos.
Questionado por Sadoc (que, com ele, perseguira cristãos) sobre a mudança tão brusca, Paulo não se cansava de repetir que vira Jesus de Nazaré e prosseguia: “Considero que a todo tempo, devemos e podemos reparar os erros do passado e é com esse ardor de fé que me proponho a regenerar minhas próprias estradas” (pg.219).
Regenerar estradas! É muito mais do que a simples aceitação de nossos desvios de ontem, por mais humildade que tal reconhecimento possa exigir. Regenerar estradas é dar um novo começo à nossa caminhada com base nas experiências das trilhas desconexas que escolhemos no passado. Toda experiência nos associa a alguns valores. Úteis e vigorosos, uns. De pouca serventia e frágeis, outros. Mas todos nos serão úteis na seleção de novos caminhos, de estradas que se farão novas pelas ferramentas aprimoradas com que a reconstruiremos ou a regeneraremos.
Tantas almas deram direção nova às suas vidas a partir de Jesus e de seus seguidores… O Perdão de Jesus pacificava as almas. Mas após o perdão, iniciava-se o trabalho individual. É a hora da transformação. Precisamos entender o convite à Mudança.
Madalena ouve o convite. Aceita-o. Renova sua estrada. Antes, as festas alegres, os convivas movidos por mil interesses, o vinho… Agora, na regeneração da estrada, seus convivas são os desvalidos, os tristes, os doentes, os excluídos pelo mesmo mundo social que antes fizera sua alegria.
Todas as almas que promoveram a Grande Reforma Íntima foram reconhecidas por Jesus: – “Há mais alegria no céu pela chegada de um pecador que se arrepende”… Essa alegria se explica pela dificuldade que todos temos de operar mudanças. Por isso, talvez, Jesus contempla Madalena com a primeira grande visão da Ressurreição. Quantas almas se regeneraram por seus exemplos! A começar pelos seus próprios obsessores. Regenerar-se é multiplicar regenerações!
E é assim que o Reino de Deus se instala na Terra. Cada regenerado é seguido por outros que por ele se regenera. Se há pressa hoje na instalação do Reino de Deus entre os homens, há pressa em nossa regeneração individual. Mil olhos nos fitam os exemplos cotidianos. Quantos pensamentos e reflexões nossas palavras e atitudes diárias propõem aos nossos observadores silenciosos? Que tipo de reflexões, idéias, pensamentos, estaremos plantando em outras mentes, enquanto interagimos com as pessoas?
Essas são algumas reflexões que nos ocorrem quando pensamos em nossa regeneração. Nosso trabalho é diário e sem tréguas. Eis um bom conselho de Paulo a Zaqueu, que muito nos serve nos dias que passam: – “Não te limites à adoração inativa, que poderá cristalizar-se em fanatismo. A doutrina de Jesus é afanosa por excelência. E ela precisa de servos trabalhadores, enérgicos, ágeis para mil e uma peripécias, de boa vontade para propagação da verdade que nos trouxe. Tu, que possuis noções da prática da beneficência, testemunha teu amor a ele, servindo a teus irmãos que sofrem ou erram, pois tal é o segredo da boa prática da Nova Doutrina” (livro Ressurreição e Vida ).
Paulo nos indica aí alguns prerrequisitos dos seguidores de Jesus. Em geral, os religiosos não enfrentam resistência para se aproximarem dos que sofrem física e materialmente. Mas quantos rejeitam os que sofrem os tormentos dos erros e das culpas! Quantos se afastam dos que, inadvertidamente, expõem suas feridas morais, seus pontos de lutas nesta vida! A luta para não cair foi grande e silenciosa. Não a testemunhamos. Mas Jesus e seus prepostos a acompanham. E buscam na Terra corações que se sensibilizem, mãos que se
estendam, verbo que esclareça sem acusações, sem preconceitos.  Jesus busca entre os homens os que o ajudem afastar seus irmãos das lembranças tristes de ontem. Cristo requer em seu trabalho almas que se amparem mutuamente, pois somos criaturas presas às dificuldades de nosso passado pleno de equívocos. Trazemos em nós os hábitos, automatismos difíceis de serem vencidos.
Daí a recomendação sábia de Estêvão a Paulo: “Não te detenhas no passado”. Completada por sua recomendação a Zaqueu, outro resgatado pelo amor de Jesus: Resgatemo-nos, resgatando os que sofrem os tormentos de dores e culpas sem o amparo do conhecimento do Evangelho. Quem quiser encontrar o Reino de Deus, ouça pacientemente os desgraçados, enxugue lágrimas, oriente os desarvorados da vida. Só assim estaremos amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. E, como Paulo a Sadoc, repetiremos aos que nos desafiam o caminhar, desaprovando nossa nova forma de vida “Eu vi Jesus”!

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